ABVE e Instituto de Engenharia publicam Carta da Eletromobilidade

ABVE e Instituto de Engenharia publicam Carta da Eletromobilidade
Carta da Eletromobilidade é fruto do 1º Debate ABVE/IE sobre eletromobilidade. Foto: Divulgação/IE

Criar uma Política Nacional de Eletromobilidade. Foi com esse objetivo que a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) e o Instituto de Engenharia (IE) lançaram a Carta da Eletromobilidade, em 19 de agosto de 2022, construída em conjunto após série de reuniões e debates realizados em São Paulo, no fim de julho de 2022.

O documento defende diretrizes necessárias para um novo ciclo de desenvolvimento econômico e social do Brasil. A carta será encaminhada para os candidatos à presidência da República, aos governos estaduais e ao Congresso Nacional.

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Segundo o documento, a eletromobilidade “é a grande fronteira tecnológica da indústria global do século 21”. Além disso, a carta reforça que o Brasil não pode se desconectar dessa tendência.

“A eletrificação do transporte público, de passageiros e de carga é vital para renovar tecnologicamente a indústria brasileira, recuperar a competitividade de sua engenharia automotiva, reinserir o parque produtivo nacional nas cadeias produtivas globais e criar os empregos de qualidade das futuras gerações”, diz um trecho da carta.

“O Brasil está perdendo seu reconhecido protagonismo internacional no transporte e mobilidade sustentável, conquistado ao longo de 30 anos em razão da produção e uso de biocombustíveis, mas tem todas as condições de retomar essa liderança”, afirma o documento assinado por Antonio Calcagnotto, presidente em exercício da ABVE, e Paulo Ferreira, presidente do Instituto de Engenharia.

Leia a carta na íntegra

Carta da Eletromobilidade

 

Instituto de Engenharia

Associação Brasileira do Veículo Elétrico

São Paulo, 19 de agosto de 2022

 

O INSTITUTO DE ENGENHARIA e a ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO VEÍCULO ELÉTRICO – ABVE realizaram na sede do Instituto, na Avenida Dr. Dante Pazzanese, 120, Vila Mariana, São Paulo, nos dias 28 e 29 de julho de 2022, o 1º DEBATE CONJUNTO: ELETROMOBILIDADE: O BRASIL ESTÁ PREPARADO PARA A GRANDE MUDANÇA?

Como resultado do evento, as entidades organizadoras e apoiadoras consolidaram esta Carta da Eletromobilidade para apresentação à sociedade brasileira e aos líderes políticos que concorrem às eleições de 2022.

É um conjunto de propostas para sintonizar a economia brasileira a essa megatendência global, que a seguir transcrevemos:

 

Necessidade Institucional da Eletromobilidade

Os compromissos do Brasil, no marco da COP 26, que visam a redução das emissões globais de CO² em 50% até 2030, têm um caráter amplo e incluem diversos setores da economia.

Nesse sentido, a eletromobilidade se apresenta como um elemento de enorme contribuição para atingir as metas assumidas, considerando os efeitos benéficos de uma mudança de paradigma no transporte público, de cargas urbanas e do aumento de veículos eletrificados de passageiros.

Alinhada com o incentivo à adoção de projetos ESG, há em todo o mundo uma busca por energias limpas e renováveis e a substituição das frotas de veículos movidos a combustíveis fósseis por tração elétrica.

Neste momento, em que outros países se preparam para a grande mudança, o Brasil precisa agir e adequar as entidades operadoras dos transportes e o seu parque industrial à introdução de veículos eletrificados, tanto para suprir o mercado interno quanto para não se isolar em relação aos demais países, o que limitaria a capacidade exportadora brasileira, inclusive para mercados próximos.

 

Cenário mundial: a eletromobilidade já é uma realidade

Em 2021, houve um crescimento de 109% nas vendas globais de veículos eletrificados, em relação ao ano anterior, e hoje nada menos do que 16 milhões de automóveis e comerciais leves elétricos e híbridos plug-in já circulam no mundo, além de 600 mil ônibus elétricos.

Os maiores mercados, por ordem de número total de veículos em circulação, são: China, Europa e os EUA. Todavia, destaca-se a Noruega, com 86% de elétricos plug-in dentre todos os veículos novos registrados em 2021.

Catástrofes globais recentes, como a Covid-19, e, agora, a guerra na Ucrânia, com seus efeitos imediatos sobre a economia e os preços dos combustíveis fósseis, ressaltam dramaticamente a urgência de instalar a eletromobilidade no topo da agenda nacional.

Alguns países tinham estabelecido metas temporais para a adoção da eletromobilidade, em conformidade com seus compromissos nacionais de corte das emissões de gases do efeito estufa (COP 21/Paris 2015 e COP 26/Glasgow 2021), como por exemplo:

2025: Noruega;

2030: Eslovênia, Holanda, Irlanda, Islândia, Cingapura, Suécia;

2035: Cabo Verde, Dinamarca, Reino Unido, Califórnia (EUA), Québec (Canadá);

2040: Canadá, França, Espanha;

2050: Costa Rica.

Fonte: ICCT/Junho 2021

Essas metas, no entanto, estão sendo atualizadas – e antecipadas, em vários casos – por uma recente resolução da União Europeia, de 28 de junho de 2022, que fixou um prazo máximo até 2035 para todos os países membros interromperem a venda de veículos novos movidos a combustíveis fósseis em seus mercados.

 

Cenário brasileiro

No Brasil, a eletromobilidade também avança, embora num ritmo inferior ao de outros países. Esse é o desafio: acelerar a transição rumo ao transporte limpo e sustentável.

Em julho de 2022, a frota brasileira de eletrificados leves atingiu a marca histórica de 100 mil veículos em circulação, sendo que somente este ano o mercado nacional deverá registrar quase a metade desse total.

O crescimento dos eletrificados no Brasil, portanto, segue uma curva ascendente sólida e irreversível, em contraste com a estagnação ou retração do conjunto das vendas domésticas nos últimos três anos.

Cabe destacar que o Brasil já conta com uma cadeia produtiva robusta e consolidada, para veículos pesados, incluindo a fabricação do powertrain elétrico, chassis, componentes e subsistemas isolados, além da montagem da carroceria e integração elétrica dos subsistemas e, recentemente, produção de baterias de tração.

Há também soluções para infraestrutura, com eletropostos residenciais de recarga lenta e os de rodovia com recarga ultrarrápida, além de sistemas de armazenamento de energia.

Apesar de o volume dobrar de tamanho a cada dois anos, o Brasil está muito distante de seu potencial, correndo o risco de ver a sua indústria se isolar tecnologicamente das grandes tendências globais e perder mercados e competitividade internacional.

As entidades e lideranças signatárias têm consciência de tudo aquilo que compõe a chamada Matriz Energética Sustentável, apoiam os fundamentos das regras ESG e defendem um projeto de transição para a eletromobilidade que leve em conta o real posicionamento e o rumo que o país quer seguir quanto às fontes energéticas já disponíveis hoje e as que estão em desenvolvimento.

 

América Latina

Por falta de políticas de Estado que garantam a transição do transporte público e de carga da propulsão a diesel para a propulsão elétrica, o Brasil está perdendo o mercado latino-americano de ônibus e caminhões, que liderou por décadas.

Esse mercado está sendo ocupado por fornecedores de outros países que oferecem produtos com tração eletrificada.

Chile, Colômbia e México – tradicionais mercados de exportação da indústria brasileira de ônibus – estão hoje à frente do Brasil em eletrificação do transporte público. E todos os ônibus elétricos comprados por esses países, sem exceção, são importados da China.

 

Protagonismo

A eletrificação do transporte público, de passageiros e de carga é vital para renovar tecnologicamente a indústria brasileira, recuperar a competitividade de sua engenharia automotiva, reinserir o parque produtivo nacional nas cadeias produtivas globais e criar os empregos de qualidade das futuras gerações.

O Brasil está perdendo seu reconhecido protagonismo internacional no transporte e mobilidade sustentável, conquistado ao longo de 30 anos em razão da produção e uso de biocombustíveis, mas tem todas as condições de retomar essa liderança:

– Tem mais de 80% de sua matriz de geração de eletricidade renovável;

– Alto potencial de crescimento das fontes de energia eólica e solar;

– Tecnologia consolidada em biocombustíveis;

– Indústria de veículos e componentes já instalada;

– Consumidores e empresas sensíveis e amigáveis às novas tecnologias;

– Potencial para substituir a frota de ônibus e carga, principais poluidores, por veículos com tração elétrica.

Diante disso, o Brasil pode e deve inclusive se tornar um exportador dessas soluções.

Mais do que uma oportunidade, o desenvolvimento de veículos elétricos leves e pesados no Brasil será uma necessidade.

O setor automotivo brasileiro está entre os dez maiores produtores de veículos no ranking mundial, gera milhares de empregos no país e exerce um importante papel na economia nacional.

O Brasil deve sempre mirar o mercado externo, e para isso precisará também dos elétricos para garantir a sua competitividade.

 

O que falta?

O Brasil necessita instituir, urgentemente, um Marco Regulatório da Mobilidade que contemple Planos Nacionais de inserção da Eletromobilidade em todos os modos de transporte, em nível de Governo Federal, Estadual, Metropolitano e Municipal, com vistas à racionalização, planejamento e economia da atividade para inserir a veículos elétricos numa estratégia de desenvolvimento do país.

Esse Plano deve incluir um conjunto de metas para assegurar a inevitável transição dos combustíveis fósseis para os renováveis no transporte, a exemplo de outros países.

Uma política abrangente requer que os órgãos regulatórios dos sistemas de energia elétrica acompanhem esta evolução e criem as condições para que as empresas do setor aumentem sua capacidade de geração e distribuição.

Ao tempo, é preciso que haja uma regulamentação clara para a geração da energia solar e eólica (inclusive com geração eólica offshore, hoje sob responsabilidade do Ibama), bem como incentivar a utilização de técnicas de armazenamento de energia pelas empresas/produtores independentes.

Também é necessário promover a produção nacional de baterias para atender a expansão da eletromobilidade, considerando-se que o Brasil dispõe de reservas de lítio e outros minerais estratégicos necessários à fabricação do produto.

É importante, ainda, criar as condições para que empresas de reciclagem de baterias se instalem e consolidem esse mercado no país.

Por fim, tendo a propulsão elétrica como foco, se faz necessária a coordenação de tais políticas com os Estados e Municípios, num modelo de Governança Metropolitana na qual os principais atores interajam de forma alinhada, visando contribuir com o plano nacional de metas.

 

O Brasil está preparado para essa grande mudança?

A eletromobilidade – a transição da economia do petróleo para a economia da neutralidade de carbono – é a grande fronteira tecnológica da indústria global do século 21.

O 1º Debate sobre Eletromobilidade promovido pelo Instituto de Engenharia e a Associação Brasileira do Veículo Elétrico em julho de 2022 convidou um time de lideranças e especialistas altamente qualificados e de olhos postos no futuro para abordar esse imenso desafio.

As entidades organizadoras e apoiadoras encaminham esta Carta da Eletromobilidade para apresentação à sociedade brasileira e aos líderes políticos que concorrem às eleições de 2022.

 

Atenciosamente,

PAULO FERREIRA

Presidente do Instituto de Engenharia

ANTONIO CALCAGNOTTO

Presidente em exercício da ABVE

Rubens Morelli
Rubens Morelli

Jornalista graduado pela PUC-Campinas. Atuou como repórter, redator e editor em veículos de comunicação de grande circulação, como Grupo Folha, Grupo RAC e emissoras de TV e rádio. Acompanha o setor de veículos elétricos e outras energias renováveis para o desenvolvimento sustentável.

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