Stella Li é vice-presidente executiva da BYD. Foto: Divulgação/BYD.
A vice-presidente executiva da BYD, Stella Li, afirmou que a empresa chinesa consegue crescer globalmente sem depender do mercado dos Estados Unidos, em um movimento que reforça a mudança no eixo da indústria automotiva. A estratégia da montadora chinesa passa por ampliar sua presença em regiões como Brasil, Europa e Reino Unido, onde a demanda por veículos elétricos segue em alta.
A declaração foi feita por Stella Li em entrevista à BBC durante o Salão do Automóvel de Pequim. “Sobrevivemos e temos sucesso sem o mercado dos EUA hoje”, afirmou a executiva.
Apesar de ser um dos maiores mercados consumidores do mundo, os Estados Unidos seguem praticamente fechados para montadoras chinesas, devido a tarifas, restrições regulatórias e preocupações com segurança de dados. Diante desse cenário, a BYD tem direcionado seus esforços para outros mercados, com destaque para o Brasil, que vem se consolidando como um dos principais destinos da expansão internacional da companhia.
Segundo Li, o desafio atual da empresa não está na demanda, mas na capacidade de produção. “Hoje enfrentamos capacidade insuficiente. A demanda é muito maior do que conseguimos atender”, disse.
Alta do petróleo impulsiona vendas da BYD
Outro fator que tem favorecido o crescimento da empresa é o aumento recente nos preços dos combustíveis, impulsionado por tensões geopolíticas no Oriente Médio. De acordo com a executiva, esse cenário tem levado consumidores a buscar alternativas mais econômicas no dia a dia.
“Os consumidores sentem a economia quando o preço do petróleo sobe. Os veículos elétricos ajudam a reduzir os custos diariamente”, afirmou.
A estratégia da BYD também reflete uma mudança mais ampla no posicionamento das montadoras chinesas. Se antes a competitividade estava baseada principalmente em preços mais baixos, agora o foco passa a ser tecnologia, especialmente em áreas como baterias, recarga e integração de software.
Desafios no mercado chinês
Apesar do avanço global, o mercado chinês apresenta desafios relevantes. A forte concorrência interna tem levado a uma guerra de preços entre fabricantes, pressionando margens e impactando as vendas domésticas. No caso da BYD, as vendas na China registraram queda por sete meses consecutivos.
Em contrapartida, a empresa tem ampliado sua presença na Europa, onde as vendas cresceram de forma significativa no início deste ano.
Para Li, o cenário competitivo tende a levar a uma consolidação do setor nos próximos anos. “A história mostra que nem todos sobrevivem”, afirmou, ao comparar o momento atual com ciclos anteriores da indústria, como a ascensão das montadoras japonesas nos anos 1990 e das marcas sul-coreanas mais recentemente.
Mais do que uma estratégia de expansão, o movimento da BYD indica uma transformação estrutural no setor automotivo. Com o avanço da eletrificação e a reorganização dos mercados globais, o crescimento das montadoras chinesas passa a depender menos de mercados tradicionais, como os Estados Unidos, e mais de regiões emergentes e em transição energética. Assim, países como o Brasil ganham protagonismo na nova configuração da mobilidade global.

Jornalista graduado pela PUC-Campinas. Atuou como repórter, redator e editor em veículos de comunicação de grande circulação, como Grupo Folha, Grupo RAC e emissoras de TV e rádio. Acompanha o setor de veículos elétricos e outras energias renováveis para o desenvolvimento sustentável.