Carros eletrificados estão abrindo espaço no mercado automotivo brasileiro. Foto: Envato/Elements
A história da mobilidade no Brasil está vivendo um capítulo fascinante. Se no início do século XX a transição da carroça para o motor a combustão parecia inevitável, hoje assistimos a um movimento semelhante: a ascensão dos carros elétricos.
A diferença é que, desta vez, a mudança ocorre em meio a uma avalanche de desinformação, fake news e resistência de setores que têm muito a perder com o fim da hegemonia dos combustíveis fósseis.
Ainda assim, o mercado cresce, e cresce porque o produto é bom, eficiente e responde às necessidades de um mundo que não pode mais ignorar a urgência climática.
O Brasil já ultrapassou a marca de 21 mil pontos de recarga públicos e semipúblicos, segundo a ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico), e a cada mês novos eletropostos surgem em shoppings, condomínios e rodovias. Esse avanço não é apenas técnico: é também cultural e econômico.
Empresas estão criando modelos de negócios inovadores, transformando a recarga em serviço, em diferencial competitivo e até em atrativo comercial. É uma nova economia que se desenha, onde mobilidade e energia se encontram para oferecer soluções mais limpas e inteligentes.
Apesar disso, a transição energética no Brasil ainda poderia ser muito mais rápida. Com uma matriz elétrica majoritariamente renovável, o país tem condições únicas de liderar esse processo.
Mas a lentidão é evidente, e parte dela se explica pela força da indústria do petróleo, que há décadas trabalha para retardar o inevitável. Narrativas sobre suposta inviabilidade dos carros elétricos, sobre falta de autonomia ou sobre custos exagerados circulam com intensidade, muitas vezes sem qualquer base factual.
É curioso notar que nenhum outro mercado sofre tanto com esse tipo de ataque. Se na época de Henry Ford houvesse internet, talvez a transição da tração animal para o motor a combustão tivesse enfrentado a mesma onda de críticas. Mas a história mostra que tecnologias superiores sempre vencem.
E os carros elétricos são superiores. Eles oferecem eficiência energética incomparável, custos de operação muito menores e uma experiência de condução que já conquistou milhões de motoristas ao redor do mundo.
Em fevereiro de 2026, por exemplo, os veículos eletrificados representaram 14% das vendas de automóveis no Brasil, com quase 25 mil emplacamentos apenas naquele mês.
Esses números não deixam dúvidas: mesmo diante da desinformação, o consumidor percebe que está diante de uma tecnologia que faz sentido econômico e ambiental.
A obsolescência dos motores a combustão é um fato. Eles são poluentes, caros de manter e tecnologicamente ultrapassados. Insistir neles é como defender a carroça em plena era digital. O futuro já chegou, e ele é elétrico.
Matriz energética brasileira favorece inovação
O Brasil, com sua matriz limpa e seu potencial de inovação, deveria estar na vanguarda dessa transformação. Cada novo eletroposto instalado, cada novo modelo lançado e cada consumidor que opta pela eletrificação reforçam que não se trata de uma moda passageira, mas de uma revolução estrutural.
No fim das contas, a expansão dos carros elétricos no Brasil é uma narrativa de resistência e inevitabilidade. Resistência porque enfrenta ataques constantes de setores que se agarram ao passado. Inevitabilidade porque a lógica econômica, ambiental e tecnológica aponta para um único caminho.
O país já vive uma transformação que vai muito além dos veículos: é uma mudança de mentalidade, de negócios e de hábitos. E, como sempre aconteceu na história da mobilidade, o novo acabará vencendo.

Mentor, Palestrante e Ativista em Sustentabilidade. Membro do INEL Instituto Nacional de Energia Limpa.