Futuro da mobilidade oferece diversas alternativas. Foto: Divulgação/Freepik.
Quando falamos em descarbonizar o transporte, a imagem que vem à mente da maioria é um carro elétrico ligado na tomada. E não me levem a mal: como entusiasta e pesquisador do setor, sei que a eletrificação direta é a espinha dorsal dessa revolução. Mas, para atingirmos o “Net Zero” real, precisamos ser honestos: a bateria de íon-lítio sozinha não vai salvar o mundo.
O futuro do transporte limpo não é um monólogo tecnológico, é um coral. Para o Canal VE, preparei uma análise sobre como três inovações, quais sejam, baterias de nova geração, hidrogênio verde e biocombustíveis, que acredito estão convergindo para acelerar a transição energética onde o carro elétrico convencional encontra seus limites.
Baterias: A revolução dentro da revolução
A tecnologia atual de Íon-Lítio (Li-ion) fez o impossível acontecer, mas está se aproximando de seus limites práticos de densidade energética e custo, abrindo espaço para complementos. O que vem por aí a partir de 2026-2027 vai mudar as regras do jogo:
- Baterias de Estado Sólido (Solid-State): Prometem aumentar a autonomia em 30-60% e reduzir o risco de incêndio a quase zero. Ao substituir o eletrólito líquido (inflamável) por um material sólido, alcançamos densidades energéticas de ~300-500 Wh/kg.
O Pulo do Gato: Elas permitem recargas ultrarrápidas reais, recuperando 80% em 10-15 minutos, sem degradar tanto a célula. Isso é ideal para viagens longas.
- Baterias de Íon-Sódio (Na-ion): Se o estado sólido é sobre performance, o sódio é sobre democratização. O lítio é caro e geopoliticamente complicado. O sódio? Tem em qualquer lugar (é o sal de cozinha, grosso modo).
A Sacada: Elas são mais baratas e funcionam melhor no frio e no calor extremo. Para carros urbanos de entrada e city-cars no Brasil, o sódio pode ser a chave para baixar o preço do VE para a casa dos R$ 80-100 mil.
Hidrogênio Verde (H2V): O halterofilista da energia
Baterias são pesadas. Para um caminhão de 40 toneladas cruzar o Brasil, ele precisaria de tantas baterias (por enquanto!) que sobraria pouco espaço para a carga. É aqui que entra o Hidrogênio Verde.
- Como funciona: Produzido com energia solar ou eólica (quebrando a molécula da água), o H2V é usado em células de combustível (FCEV) que geram eletricidade a bordo.
- O Complemento: Ele não compete com o carro de passeio; ele o liberta. O H2V pode ser a solução para o transporte pesado, ônibus rodoviários, navios e trens, isso como nos projetos Be8 no Brasil. Onde a bateria não alcança por peso ou tempo de recarga, o hidrogênio entrega densidade e rapidez de abastecimento, apesar de custos iniciais altos que estão caindo rapidamente. É uma grande promessa!
Biocombustíveis Avançados: A ponte e o destino
Muitos puristas torcem o nariz, mas o motor a combustão ainda vai rodar por décadas na frota legada. E temos um problema difícil de resolver com baterias (por enquanto?): aviões.
- SAF (Combustível Sustentável de Aviação): É a única forma viável hoje de descarbonizar a aviação comercial de longa distância. Baterias (hoje!) são pesadas demais para um Boeing 777.
- No Brasil: Temos uma vantagem competitiva única. O nosso etanol de segunda geração e o diesel verde (HVO) podem limpar a frota de caminhões atual agora, sem esperar a troca da frota por elétricos, que levará anos. Eles funcionam como tecnologias de transição essenciais para reduzir emissões imediatamente.
A Grande Convergência: Como tudo se encaixa?
A “guerra” entre elétricos, hidrogênio e biocombustíveis é uma narrativa falsa. A descarbonização eficiente é um quebra-cabeça em que cada peça tem seu lugar:
- Mobilidade Urbana e Leve: Baterias (Lítio e Sódio) reinam absolutas. Eficiência imbatível.
- Transporte Pesado e Longa Distância: Hidrogênio Verde assume o protagonismo.
- Aviação e Frota Legada: Biocombustíveis garantem que não fiquemos parados esperando o futuro chegar.
Para o Brasil, isso é ouro. Temos sol para carregar baterias, vento para fazer hidrogênio e biomassa para os combustíveis. Não precisamos escolher um vencedor. Se jogarmos com inteligência, seremos líderes em todos eles.

Engenheiro eletricista com mestrado, doutorado, pós-doutorado e livre-docência na área energética, atua com foco em Energia e é especialista em Transição Energética e no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 7 (ODS7). É professor associado na Universidade de São Paulo (USP).