Demanda por energia pode aumentar no Brasil com aumento da frota eletrificada. Foto: Divulgação/Freepik.
O avanço dos carros elétricos no Brasil pode influenciar diretamente a expansão do sistema elétrico do país até 2035. É o que aponta uma Nota Técnica da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), que projeta maior demanda de eletricidade com o crescimento da frota eletrificada.
Segundo o estudo, o aumento dos veículos elétricos já começa a ser considerado no planejamento energético nacional, ao lado de fatores tradicionais como crescimento econômico e consumo residencial.
Na prática, isso indica uma mudança relevante: o setor de transportes passa a ter participação crescente na demanda por eletricidade no Brasil, algo que até recentemente tinha impacto limitado.
Mobilidade elétrica entra no radar do setor
A análise da EPE incorpora de forma mais estruturada o consumo de energia associado aos veículos leves eletrificados, refletindo a expansão desse tipo de tecnologia no mercado brasileiro.
O avanço da eletrificação da mobilidade acompanha o aumento da oferta de modelos e a redução de preços em alguns segmentos, o que amplia o acesso do consumidor a veículos elétricos. Enquanto os carros a combustão mais baratos e os mais vendidos permaneceram na mesma faixa de preço nos últimos cinco anos, os carros híbridos plug-in (PHEV) e os elétricos (BEV) mais vendidos tiveram redução nos preços no período, tornando-se mais acessíveis, como mostra o gráfico abaixo.

Com isso, a recarga de veículos passa a integrar o perfil de consumo de energia no país, exigindo maior atenção no planejamento da rede elétrica e na distribuição da carga ao longo do dia.
Crescimento da demanda e desafios para o sistema
No cenário base projetado pela EPE, o consumo de eletricidade no Brasil deve crescer, em média, cerca de 3,3% ao ano até 2035.
Embora o aumento seja puxado por diferentes setores, como comércio, serviços e residências, a eletrificação do transporte surge como um novo vetor de crescimento.
De acordo com os dados da EPE, o Brasil tinha, em 2025, uma relação de 17 veículos eletrificados por eletroposto, e uma potência de 1 kW de recarga pública por veículo, enquanto um mercado mais maduro, como a China, por exemplo, tinha a relação de menos de 10 veículos eletrificados por eletroposto, com 3 kW de recarga pública por veículo.
Os números brasileiros indicam pouco acesso à infraestrutura e baixo suporte à demanda energética da frota em comparação com outros mercados, o que acarreta em uma pressão maior para o futuro do consumo de energia no país.

Esse movimento traz desafios para o sistema elétrico, como a necessidade de expansão da geração, reforço da infraestrutura de distribuição e adaptação a novos padrões de consumo.
Ao mesmo tempo, abre espaço para soluções como recarga inteligente, integração com geração distribuída e uso de sistemas de armazenamento.
O avanço dos carros elétricos, portanto, deixa de ser apenas uma tendência do setor automotivo e passa a influenciar diretamente decisões estratégicas do setor elétrico brasileiro.

Jornalista graduado pela PUC-Campinas. Atuou como repórter, redator e editor em veículos de comunicação de grande circulação, como Grupo Folha, Grupo RAC e emissoras de TV e rádio. Acompanha o setor de veículos elétricos e outras energias renováveis para o desenvolvimento sustentável.