BYD Dolphin Mini é o carro elétrico mais eficiente do Brasil. Foto: Rubens Morelli/Canal VE.
Um estudo do ICCT Brasil (International Council on Clean Transportation) mostra que as emissões de CO₂ em carros elétricos no Brasil são, em média, até 87% menores do que nos veículos a combustão, considerando todo o ciclo energético, do poço à roda.
Como comparação, o BYD Dolphin Mini emite, em média, 8,9 gCO₂e/km, enquanto o carro a combustão com menor taxa de emissões é o Renault Kwid, com 83,6 gCO₂e/km — quase uma tonelada de CO₂ a mais por ano, o equivalente ao plantio de cerca de 43 árvores.
A análise seguiu os parâmetros oficiais do Programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação), política pública do governo federal que estabelece critérios para mensuração das emissões no setor automotivo.
O levantamento analisou todos os modelos de carros de passeio comercializados no país entre maio de 2024 e junho de 2025, cruzando dados de consumo energético, fatores de emissão dos combustíveis, matriz elétrica nacional e padrões reais de uso dos veículos.
O resultado deixa claro o forte potencial de mitigação de emissões dos veículos elétricos a bateria (BEVs), especialmente em um país com matriz elétrica majoritariamente renovável, como o Brasil.
Segundo o ICCT, os 56 modelos elétricos disponíveis no mercado brasileiro no período analisado apresentaram média de apenas 13 gCO₂e/km, contra 103 gCO₂e/km dos veículos flex e 175 gCO₂e/km dos modelos a gasolina.

Ranking evidencia distância entre elétricos e combustão
A análise individual dos modelos reforça essa diferença. No topo do ranking aparece o BYD Dolphin Mini, com apenas 8,9gCO₂e/km, seguido por Neta Aya (9,4 gCO₂e/km), Renault Kwid E-Tech (9,6 gCO₂e/km) e BYD Dolphin (9,8 gCO₂e/km).
O primeiro veículo puramente a combustão só surge muito mais abaixo na lista: o Renault Kwid flex, com 83,6 gCO₂e/km — quase dez vezes mais.
Entre os modelos mais vendidos do país, como Chevrolet Onix, Hyundai HB20, Volkswagen Polo e Fiat Mobi, os números ficam entre 88 e 90 gCO₂e/km, evidenciando a diferença estrutural entre as tecnologias. Veja a tabela completa aqui.
“Mesmo quando comparados aos híbridos, os elétricos mantêm vantagem expressiva. Os híbridos plug-in (PHEVs), por exemplo, emitem em média 74gCO₂e/km, cerca de 28% menos que os flex, mas ainda muito acima dos elétricos puros”, diz o estudo.

Matriz energética brasileira amplia vantagem dos elétricos
De acordo com o ICCT, um dos fatores centrais para o desempenho dos BEVs no Brasil é a matriz elétrica majoritariamente limpa, composta principalmente por fontes hidrelétricas, eólicas, solares e biomassa. Isso reduz drasticamente as emissões associadas ao carregamento dos veículos.
No modelo de cálculo do Mover, o fator de emissão da eletricidade brasileira é significativamente inferior ao de países cuja geração depende fortemente de carvão e gás natural, ampliando o diferencial ambiental dos carros elétricos no contexto nacional.

Híbridos têm ganhos limitados
O estudo também chama atenção para o desempenho modesto dos híbridos leves (MHEVs). Segundo o ICCT, esses modelos apresentam emissões semelhantes ou até superiores aos carros flex tradicionais, especialmente porque, no Brasil, tendem a ser veículos maiores e mais pesados.
Já os híbridos convencionais (HEVs) mostram algum ganho ambiental, sobretudo quando flex, mas ainda longe do patamar dos elétricos. O Toyota Corolla híbrido flex, por exemplo, registra 75,2 gCO₂e/km, desempenho significativamente melhor que o dos flex puros, porém, distante dos BEVs.

Programa Mover muda forma de medir impacto ambiental
Diferentemente dos ciclos tradicionais de homologação, o Mover considera todo o ciclo energético, desde a extração da fonte primária até o movimento do veículo (do poço à roda), incorporando fatores como: consumo energético real; tipo de combustível utilizado; participação do etanol nos flex; uso do modo elétrico nos híbridos plug-in; e matriz de geração elétrica.
A abordagem permite uma comparação mais fiel entre diferentes tecnologias, evitando distorções comuns quando se analisa apenas o modelo tanque à roda.
Os resultados reforçam o papel dos veículos elétricos como principal vetor de descarbonização do transporte individual no Brasil, especialmente dentro da lógica do Mover, que busca estimular tecnologias com maior potencial de mitigação.
Na prática, os dados indicam que a troca de um carro flex por um elétrico pode reduzir as emissões diretas em mais de 80%, sem depender de mudanças estruturais profundas na matriz energética nacional.

Mercado em transição
O Brasil registrou, em 2025, 223.912 emplacamentos de veículos eletrificados, segundo a Associação brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), um aumento de 26% em relação aos números registrados em 2024 (cerca de 177,3 mil veículos).
Do total de emplacamentos, 80.178 unidades foram de modelos totalmente elétricos (BEV). A tecnologia de eletrificação mais vendida no país em 2025 foi a de híbridos plug-in, com 101.364 unidades.

Jornalista graduado pela PUC-Campinas. Atuou como repórter, redator e editor em veículos de comunicação de grande circulação, como Grupo Folha, Grupo RAC e emissoras de TV e rádio. Acompanha o setor de veículos elétricos e outras energias renováveis para o desenvolvimento sustentável.