Instalação de carregadores para carros elétricos em garagens devem seguir normas de segurança. Foto: Rubens Morelli/Canal VE.
A Lei estadual nº 18.403/2026, que assegura ao condômino o direito de instalar carregador para veículos elétricos em sua vaga de garagem, colocou o tema da recarga doméstica no centro das discussões em condomínios paulistas. Embora a norma traga segurança jurídica e impeça proibições arbitrárias, ela não significa que a instalação seja automática nem livre de critérios técnicos.
Na prática, a recarga em garagens depende de avaliação elétrica, adequações de infraestrutura e comunicação formal à administração do prédio. Para moradores que ainda não possuem carro elétrico — mas convivem com a possibilidade de um vizinho instalar um carregador — a principal preocupação costuma ser a segurança do edifício.
Especialistas e entidades do setor afirmam que, quando projetada corretamente e executada por profissional habilitado, a recarga é segura e segue padrões semelhantes aos exigidos para equipamentos elétricos de alta potência já comuns nas residências, como sistemas de ar-condicionado ou aquecimento.
“Cada prédio tem uma realidade diferente. É fundamental avaliar a capacidade do quadro geral, seguir as normas técnicas brasileiras e instalar dispositivos de proteção adequados. O morador deve contratar empresa especializada, e o síndico deve exigir laudo técnico e responsabilidade profissional. Quando tudo é feito dentro da norma, a instalação é segura e não traz riscos ao condomínio”, afirma Danilo Guastapaglia, CEO da Go Electric, empresa especializada em soluções de recarga para condomínios, empresas e frotas, com mais de 2 mil instalações de estações de recarga no Brasil.

Avaliação elétrica é o primeiro passo
Antes de qualquer obra, é necessário verificar se a rede elétrica suporta a nova carga. Isso pode envolver tanto a infraestrutura da unidade quanto a do próprio condomínio, especialmente em edifícios mais antigos, projetados quando a mobilidade elétrica ainda não era considerada.
Uma solução frequentemente adotada é a ligação direta ao medidor do apartamento, permitindo que o consumo seja individualizado e evitando disputas sobre rateio de energia. Porém, dependendo da distância entre a unidade e a vaga, pode exigir passagem de cabos e eletrodutos por áreas maiores e verificação da capacidade do circuito da unidade.
“Uma das soluções é o gestor de cargas individual por unidade consumidora. Esse equipamento monitora em tempo real o consumo do apartamento e prioriza automaticamente a carga da unidade. Quando o morador aumenta o consumo interno — ligando chuveiro, ar-condicionado ou forno, por exemplo —, o sistema limita a utilização e a potência do carregador. Isso minimiza ou até evita a necessidade de aumento de carga junto à concessionária, trazendo segurança elétrica e economia. É um sistema seguro, pois não necessita de rede de internet ou software de gestão”, explica Guastapaglia.
Em outros casos, principalmente quando há interesse coletivo, ou seja, quando mais de um morador quer fazer a instalação, a energia pode vir da rede do condomínio, para uma área pré-determinada para as vagas de recarga. O método funciona bem com vagas rotativas.
Essa alternativa exige definição clara sobre medição e cobrança — que pode ser realizada por meio de QR Code, cartão de identificação, senhas, etc —, além de maior planejamento para não comprometer o consumo das áreas comuns.

Tecnologia ajuda a evitar sobrecarga
Um dos principais receios em condomínios é o impacto de vários veículos carregando simultaneamente. Para lidar com essa situação, sistemas de gerenciamento inteligente de carga já são utilizados em diversos empreendimentos.
Essas soluções monitoram o consumo total do prédio e distribuem automaticamente a potência entre os carregadores, reduzindo o risco de sobrecarga. Se poucos veículos estiverem conectados, a recarga ocorre mais rapidamente; se houver muitos, a potência é ajustada para manter a estabilidade do sistema elétrico.
Na prática, o processo é semelhante ao funcionamento de outros sistemas automatizados de energia, permitindo expansão gradual da infraestrutura sem necessidade de grandes reforços imediatos.

Garagens antigas podem exigir adaptações
Edifícios construídos antes da popularização dos veículos elétricos podem apresentar limitações estruturais, como quadros elétricos subdimensionados ou ausência de conduítes adequados até as vagas. Isso não impede a instalação, mas pode exigir intervenções adicionais e planejamento técnico mais detalhado.
Especialistas ressaltam que o desafio não está no carro elétrico em si, mas nas condições da instalação elétrica e da garagem. Sistemas de proteção, aterramento adequado e conformidade com as normas técnicas são determinantes para garantir segurança.
Importante ressaltar que as discussões recentes sobre mobilidade elétrica em condomínios também trouxeram à tona a necessidade de adequações nas garagens, independentemente do tipo de veículo estacionado. Carros a combustão, que armazenam combustíveis em tanques de plástico, também representam riscos de incêndio — muitas vezes sem a mesma preocupação geral —, e podem igualmente colapsar as estruturas prediais.
Assim, sistemas de detecção e combate a incêndio, ventilação e proteção estrutural são medidas recomendadas para reduzir riscos gerais, não apenas associados a carros elétricos.
Nesse contexto, a legislação paulista reforça a exigência de conformidade com normas técnicas e a responsabilidade do profissional que executa o projeto, formalizada por meio de ART ou RRT.
Além disso, as normas técnicas priorizam o uso de carregadores do tipo wallbox, em detrimento dos carregadores portáteis ou emergenciais, o que contribui com a segurança predial.
“As estações wallbox são equipamentos fixos, projetados especificamente para recarga contínua de veículos elétricos, com proteções internas contra sobrecorrente, sobretemperatura e falhas elétricas. Já os carregadores portáteis ou emergenciais foram pensados para uso eventual, não para utilização diária e prolongada. O wallbox, quando instalada conforme norma técnica, oferece muito mais segurança, durabilidade e controle”, afirma o CEO da Go Electric.

Processo envolve comunicação com o condomínio
Embora a lei impeça que o condomínio proíba a instalação arbitrariamente, ela exige que o interessado faça a comunicação formal prévia à administração do prédio. O objetivo é permitir avaliação das condições técnicas e garantir que a instalação não comprometa a infraestrutura coletiva. O condomínio também pode procurar especialistas para avaliar as condições do projeto elétrico da unidade e verificar a disponibilidade de carga no local.
Essa etapa também é importante para evitar conflitos internos e assegurar que futuras instalações possam seguir um padrão definido — o que é altamente recomendado —, especialmente à medida que a frota eletrificada cresce.

Recarga residencial é considerada essencial
A maior parte das recargas de veículos elétricos ocorre justamente onde o carro permanece estacionado por longos períodos, como residência ou local de trabalho. Isso reduz a dependência de eletropostos públicos e torna o uso diário mais conveniente e econômico.
Com a nova lei, especialistas avaliam que a tendência é de aumento gradual da infraestrutura de recarga em condomínios, especialmente no estado com a maior frota de veículos do país.
O consenso é que a eletrificação da mobilidade não exige soluções improvisadas, mas sim planejamento técnico e diálogo entre moradores, síndicos e administradoras.
A Lei 18.403 representa um avanço ao garantir o direito individual, mas também reforça que esse direito deve ser exercido com responsabilidade. Em vez de conflitos em assembleias, a expectativa é que as instalações passem a ocorrer de forma organizada, segura e previsível.

Jornalista graduado pela PUC-Campinas. Atuou como repórter, redator e editor em veículos de comunicação de grande circulação, como Grupo Folha, Grupo RAC e emissoras de TV e rádio. Acompanha o setor de veículos elétricos e outras energias renováveis para o desenvolvimento sustentável.
