O presidente dos Estados Unidos, Donaldo Trump. Foto: Divulgação/Isac Nóbrega/Agência Brasil/Arquivo.
A revogação do chamado Endangerment Finding — decisão científica de 2009 que embasava as regras federais de emissões de gases de efeito estufa nos Estados Unidos — abre um novo cenário de incerteza para a indústria automotiva global. O ato, anunciado pelo governo Donald Trump, remove o principal fundamento jurídico que permitia à Agência de Proteção Ambiental (EPA) regular emissões de CO₂ de veículos leves e pesados no país.
Na prática, isso reduz a pressão regulatória federal para a transição rumo aos veículos elétricos em um dos maiores mercados automotivos do mundo, o que pode gerar um atraso no processo de transição energética da mobilidade nos EUA — e uma sobrevida aos modelos a combustão.
O Endangerment Finding, estabelecido em 2009, reconheceu oficialmente que gases de efeito estufa representavam risco à saúde pública. A partir dele foram criadas normas que impulsionaram padrões de eficiência energética, metas de redução de emissões e incentivos à eletrificação da frota.
Porém, sem essa base legal, a continuidade dessas políticas passa a depender de novas decisões administrativas, judiciais ou legislativas.

Impactos com incertezas regulatórias
Para as montadoras globais, mais do que uma flexibilização de regras ambientais, a decisão tem como principal consequência uma instabilidade regulatória, que dificulta o planejamento de investimentos de longo prazo.
Projetos de eletrificação exigem bilhões de dólares e longos ciclos de desenvolvimento. Mudanças bruscas nas políticas públicas podem alterar previsões de demanda, retorno financeiro e posicionamento estratégico das marcas. Em outras palavras, pode comprometer toda a cadeia da eletrificação, dada a importância do mercado americano para a indústria automotiva.
Há ainda outro fator que implica em mais incertezas: a retirada da pressão federal não elimina completamente as exigências ambientais em território norte-americano. Um estado como a Califórnia, por exemplo, mantém regras próprias e mais rigorosas em relação à eletrificação, servindo de referência para outros mercados regionais.
Assim, as empresas podem ter de lidar com diversos cenários dentro do mesmo país, o que aumenta a complexidade operacional e jurídica.

Competição global pode favorecer China
Enquanto os EUA revisam sua política climática, China e União Europeia mantêm estratégias claras de descarbonização e apoio à eletrificação. Isso pode ampliar a vantagem competitiva de fabricantes chineses, que já dominam cadeias produtivas de baterias e veículos elétricos.
A China lidera tanto a produção quanto a adoção de veículos elétricos e continua expandindo sua presença internacional — incluindo no Brasil. Marcas chinesas vêm acelerando investimentos em mercados emergentes, onde a transição energética ocorre sem necessariamente depender de incentivos americanos.

Brasil surge como mercado estratégico
O Brasil aparece como um dos destinos prioritários dessa expansão chinesa. Nos últimos anos, o país recebeu investimentos relevantes em produção local, infraestrutura de recarga e importação de veículos eletrificados. Com demanda crescente por mobilidade de baixo carbono, o mercado brasileiro tende a se tornar ainda mais relevante no cenário global.
Além disso, políticas energéticas baseadas em fontes renováveis favorecem a eletrificação do transporte urbano no Brasil sob a ótica de emissões. O que abre espaço para mais investimentos nesse setor.

Jornalista graduado pela PUC-Campinas. Atuou como repórter, redator e editor em veículos de comunicação de grande circulação, como Grupo Folha, Grupo RAC e emissoras de TV e rádio. Acompanha o setor de veículos elétricos e outras energias renováveis para o desenvolvimento sustentável.