Transição energética da mobilidade está ganhando escala. Foto: Divulgação/Freepik.
A recente alta do petróleo no mercado internacional reacendeu um debate que vai além das emissões de carbono: a dependência global de combustíveis fósseis e seus impactos diretos na economia. Um relatório da Agência Internacional de Energia (IEA) aponta que a eletrificação do transporte, especialmente com o avanço dos carros elétricos, pode funcionar como uma proteção contra choques de preços e crises de abastecimento.
Segundo o documento, o transporte rodoviário é hoje o principal vetor dessa vulnerabilidade. O setor responde por cerca de 45% da demanda global de petróleo e, em regiões como a América Latina, pode chegar a representar até dois terços do consumo. Isso significa que qualquer instabilidade no fornecimento ou aumento nos preços impacta diretamente o custo de vida da população.

Petróleo caro afeta inflação e transporte
O relatório destaca que eventos geopolíticos recentes — como tensões no Oriente Médio — têm potencial para afetar rotas estratégicas de petróleo, como o Estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela significativa do abastecimento global. Nessas situações, o efeito é imediato: aumento no preço dos combustíveis, pressão sobre o frete e impacto em cadeia sobre a inflação.
Na prática, isso se traduz em custos mais altos para transporte de mercadorias, alimentos e serviços, afetando diretamente o bolso do consumidor.
É nesse contexto que os veículos elétricos passam a ocupar um novo papel. Para a IEA, a eletrificação do transporte deixa de ser apenas uma agenda ambiental e passa a integrar uma estratégia de segurança energética.
O relatório defende a aceleração da adoção de carros elétricos e da infraestrutura de recarga como uma forma estrutural de reduzir a dependência do petróleo. Hoje, esses veículos já representam mais de um em cada quatro carros vendidos no mundo, sinalizando uma mudança relevante no mercado automotivo global.
Ao substituir o consumo de combustíveis fósseis por eletricidade, os veículos elétricos ajudam a diminuir a exposição das economias às oscilações do petróleo, tornando o sistema energético mais resiliente.

Brasil ainda depende de combustíveis fósseis
No Brasil, o cenário reforça a relevância dessa discussão. Dados recentes mostram que diesel e gasolina ainda representam cerca de 70% da matriz energética do transporte, evidenciando a forte dependência de combustíveis fósseis.
Ao mesmo tempo, o país começa a registrar avanços na eletrificação. Em 2025, foram emplacados cerca de 223,9 mil veículos eletrificados leves, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).
Outro movimento importante foi a inclusão da eletricidade no transporte rodoviário no Balanço Energético Nacional (BEN) 2025, um sinal de que a transição energética começa a ganhar mais relevância nas estatísticas oficiais.
O relatório da IEA também cita políticas públicas como parte essencial desse processo. No caso brasileiro, programas como o Mover são mencionados como exemplos de iniciativas voltadas à eficiência energética e modernização da indústria automotiva.
Além disso, a expansão da infraestrutura de recarga é apontada como um fator-chave para sustentar o crescimento dos veículos elétricos, garantindo que a transição ocorra de forma consistente.
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Mudança de narrativa no setor automotivo
A principal conclusão do relatório é que a eletrificação do transporte está deixando de ser apenas uma resposta às mudanças climáticas para se tornar uma ferramenta econômica e estratégica.
Diante de um cenário de instabilidade no mercado de petróleo, veículos elétricos passam a ser vistos como uma alternativa capaz de reduzir custos, aumentar a segurança energética e mitigar impactos inflacionários.
Na prática, isso representa uma mudança de narrativa: mais do que uma escolha ambiental, a adoção de carros elétricos passa a ser também uma decisão econômica — tanto para países quanto para consumidores.

Jornalista graduado pela PUC-Campinas. Atuou como repórter, redator e editor em veículos de comunicação de grande circulação, como Grupo Folha, Grupo RAC e emissoras de TV e rádio. Acompanha o setor de veículos elétricos e outras energias renováveis para o desenvolvimento sustentável.