Mobilidade elétrica tem papel fundamental nas economias de baixo carbono. Foto: Divulgação/Freepik.
A transição energética global para uma economia de baixo carbono pode mudar também a forma como o comércio internacional está habituado há décadas, promovendo uma reconfiguração entre as indústrias e o poder econômico entre países até 2050. É isso o que aponta o um estudo da BloombergNEF (BNEF), que projeta mudanças estruturais nos fluxos de energia, matérias-primas e tecnologias associadas à economia de baixo carbono.
Segundo a análise, o comércio tradicional de combustíveis fósseis, como petróleo, gás e carvão, será substituído gradativamente pela negociação de cadeias baseadas na eletrificação, como baterias, hidrogênio verde, minerais críticos e tecnologias de energia limpa — um movimento com impacto direto na indústria automotiva, na mobilidade elétrica e na segurança energética global.
Mobilidade elétrica ganha força
A eletrificação do transporte aparece como um dos motores centrais dessa transformação. A substituição de motores a combustão por veículos elétricos altera não apenas o consumo de energia, mas toda a estrutura industrial envolvida: da mineração à fabricação de baterias, passando por infraestrutura de recarga e software.
Isso significa que países com domínio tecnológico e capacidade industrial nessas áreas tendem a ganhar relevância econômica, enquanto exportadores de combustíveis fósseis podem perder espaço ao longo do tempo.
O relatório também indica que o comércio global deve se tornar menos dependente de rotas marítimas tradicionais de petróleo e mais ligado a cadeias regionais de produção industrial e fornecimento de energia limpa. Em vez de transportar combustíveis, países poderão trocar eletricidade, hidrogênio e produtos manufaturados de baixo carbono.
Nesse contexto, a disputa geopolítica por liderança tecnológica — especialmente entre China, Estados Unidos e Europa — tende a se intensificar. A China, por exemplo, já domina grande parte da cadeia de baterias e veículos elétricos, enquanto países ocidentais buscam reduzir dependências estratégicas e estimular a produção local.
Brasil pode se beneficiar
O estudo sugere que países com abundância de recursos naturais e matriz energética limpa têm potencial para assumir um papel relevante nesse novo cenário — e o Brasil aparece como um dos candidatos naturais.
Com alta participação de fontes renováveis na geração elétrica, grande disponibilidade de água, sol e vento, além de reservas minerais importantes, o país reúne condições para se tornar exportador de energia limpa, hidrogênio verde e produtos industriais de baixo carbono.
Na prática, isso pode atrair investimentos para setores ligados à mobilidade elétrica, como fabricação de baterias, produção de biocombustíveis avançados e infraestrutura energética. Também abre espaço para que o Brasil se torne base produtiva para veículos eletrificados destinados a mercados internacionais.
No entanto, especialistas alertam que aproveitar essa oportunidade depende de políticas industriais, estabilidade regulatória e investimentos em tecnologia. Sem isso, o país corre o risco de permanecer apenas como fornecedor de matérias-primas, enquanto o valor agregado fica concentrado em outras economias.
Reorganização global
De acordo com o relatório da BloombergNEF, a transição energética não será uniforme. Diferentes regiões avançarão em ritmos distintos, criando um cenário de múltiplas cadeias produtivas e alianças comerciais. Países importadores de combustíveis fósseis podem reduzir vulnerabilidades energéticas, enquanto exportadores precisarão diversificar suas economias.
Para a indústria automotiva e o setor de mobilidade, o impacto tende a ser profundo. A eletrificação não representa apenas uma mudança tecnológica, mas uma reorganização completa da cadeia global de valor — da extração mineral à fabricação de veículos e infraestrutura.
Se as projeções se confirmarem, a transição energética poderá redefinir não apenas como o mundo produz e consome energia, mas também quem lidera a economia global nas próximas décadas. E, nesse novo tabuleiro, países com capacidade de combinar recursos naturais, tecnologia e indústria — como o Brasil — podem assumir um papel mais estratégico do que no modelo energético baseado em combustíveis fósseis.

Jornalista graduado pela PUC-Campinas. Atuou como repórter, redator e editor em veículos de comunicação de grande circulação, como Grupo Folha, Grupo RAC e emissoras de TV e rádio. Acompanha o setor de veículos elétricos e outras energias renováveis para o desenvolvimento sustentável.