Mobilidade elétrica começa a ganhar escala no Brasil. Foto: Divulgação/Arquivo.
O mercado brasileiro de veículos eletrificados entrou em uma nova fase de crescimento. A avaliação aparece no 5º Anuário Brasileiro da Mobilidade Elétrica e de Baixo Carbono, produzido pela Plataforma Nacional de Mobilidade Elétrica (PNME), que analisa a evolução recente da eletromobilidade, da infraestrutura de recarga e das rotas de descarbonização no país.
Segundo o documento, a eletrificação brasileira deixou de depender apenas de movimentos pontuais, como lançamentos isolados ou nichos específicos de mercado, e passou a apresentar sinais mais estruturais de expansão. O anuário cita fatores como aumento da oferta de modelos, entrada das montadoras chinesas, crescimento da infraestrutura de recarga e mudança gradual no comportamento do consumidor brasileiro.
Os números ajudam a mostrar essa mudança de patamar. O total de veículos eletrificados vendidos no Brasil saltou de 49.084 unidades em 2022 para 231.295 unidades em 2025, segundo os dados da plataforma, um avanço superior a 370% no período. Com isso, os eletrificados passaram a representar, no final de 2025, cerca de 9% das vendas de veículos leves no país. Atualmente, segundo a ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico), os veículos eletrificados representam 16% das vendas no país.
O próprio perfil do mercado também começou a mudar. Nas primeiras edições do anuário, o foco ainda estava muito concentrado em desafios básicos da eletromobilidade, como infraestrutura limitada, baixa oferta de modelos e dúvidas relacionadas ao uso dos veículos elétricos no dia a dia. O documento de 2026 já trata o setor em outro patamar, mais conectado à reorganização da indústria automotiva e da transição energética brasileira.
“A mobilidade elétrica deixou de ser uma agenda de nicho para se consolidar como uma transformação estrutural do mercado automotivo brasileiro. O avanço recente dos veículos eletrificados reflete não apenas o crescimento das vendas, mas também uma mudança mais ampla na dinâmica tecnológica, industrial e energética do setor”, diz Edgar Barassa, pesquisador e um dos co-autores do anuário, em parceria com Leonardo Brandão, Robson Cruz e Sabrina Cima.
“Embora a eletrificação permaneça como eixo central deste anuário, buscamos ampliar a análise para incluir também os biocombustíveis e outras rotas de baixa emissão, reconhecendo as especificidades da trajetória brasileira de descarbonização dos transportes. Mais do que uma disputa entre tecnologias, entendemos que o futuro da mobilidade sustentável no Brasil será construído pela convergência entre eletrificação, biocombustíveis e soluções energéticas complementares, em uma lógica integrada de transição energética”, completa Barassa.

Chinesas e carros “plugáveis” aceleram mercado
O anuário aponta que a entrada mais forte das montadoras chinesas teve papel importante nessa aceleração do mercado brasileiro. Modelos como BYD Dolphin Mini e Geely EX2 aparecem no estudo como exemplos da expansão dos veículos eletrificados para faixas de preço mais acessíveis.
O documento também mostra uma mudança relevante no mix tecnológico dos eletrificados vendidos no país. Segundo o estudo, o mercado brasileiro começa a migrar de arquiteturas híbridas mais leves para modelos com maior nível de eletrificação, principalmente os híbridos plug-in (PHEV) e os veículos 100% elétricos (BEV).
Os PHEVs registraram crescimento de aproximadamente 770% entre 2022 e 2025, enquanto os BEVs avançaram cerca de 847% no mesmo intervalo.
Na prática, o anuário indica que os híbridos plug-in passaram a ocupar um espaço estratégico no Brasil por funcionarem como uma transição entre os modelos tradicionais e os elétricos puros, especialmente em um mercado onde a infraestrutura de recarga ainda está em expansão.

Infraestrutura começa a acompanhar crescimento da frota
Outro ponto destacado pelo documento é o avanço da infraestrutura de recarga no Brasil. Durante anos, a falta de carregadores aparecia como uma das principais barreiras para o crescimento dos elétricos no país. O anuário aponta que esse cenário começa a mudar gradualmente, tanto com a expansão dos eletropostos públicos quanto com o crescimento da recarga residencial e em condomínios.
Segundo Ricardo Bastos, presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), a relação entre frota e infraestrutura deixou de funcionar como um entrave e passou a operar de forma “complementar e sinérgica”.

Brasil deve seguir rota própria na transição energética
O anuário também defende que a transição energética brasileira não deve seguir exatamente o mesmo caminho observado em mercados como Europa, China ou Estados Unidos.
Segundo o documento, o Brasil tende a avançar em um modelo baseado em múltiplas rotas tecnológicas, combinando eletrificação, etanol, biocombustíveis, biometano e outras soluções de baixa emissão.
A leitura do estudo é que essa característica pode se tornar uma vantagem competitiva para o país no processo de descarbonização do transporte.
Ao mesmo tempo, o anuário relaciona a expansão da eletromobilidade à reorganização global da indústria automotiva, especialmente diante do avanço das fabricantes chinesas e da disputa internacional por baterias, minerais críticos e infraestrutura energética.
Mais do que projetar cenários futuros, o documento sugere que a eletromobilidade já começa a ocupar um espaço estrutural dentro da indústria automotiva brasileira.

Jornalista graduado pela PUC-Campinas. Atuou como repórter, redator e editor em veículos de comunicação de grande circulação, como Grupo Folha, Grupo RAC e emissoras de TV e rádio. Acompanha o setor de veículos elétricos e outras energias renováveis para o desenvolvimento sustentável.