Carro elétrico recebe recarga pela tomada de energia. Foto: Divulgação/Freepik.
A gasolina pode ficar ainda mais “misturada” no Brasil. O governo federal estuda aumentar a porcentagem de etanol dos atuais 30% para 32% ainda no primeiro semestre de 2026. A medida foi citada pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, como uma resposta à crise internacional do petróleo e à necessidade de reduzir a dependência externa.
Embora a legislação permita a adição de até 35% de etanol, a mudança pode trazer impactos práticos para parte da frota. Veículos movidos exclusivamente a gasolina — como híbridos importados, motos e carros mais antigos — podem sofrer com alterações no desempenho e, no longo prazo, ter aumento nos custos de manutenção.
Diferentemente dos modelos a combustão, os carros 100% elétricos não sofrem com mudanças na composição da energia.
Independentemente da fonte — hidrelétrica, solar, eólica, biomassa ou térmica —, a eletricidade armazenada na bateria é sempre a mesma, sem variações de mistura ou qualidade que impactem diretamente o funcionamento do veículo.
Além disso, a tarifa de energia segue regras definidas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), com reajustes periódicos e mecanismos como bandeiras tarifárias, que reduzem a volatilidade em comparação aos combustíveis fósseis.

Carros elétricos mudam a lógica do abastecimento
O avanço dos carros elétricos no Brasil reforça essa mudança de lógica no abastecimento. Em março de 2026, os veículos 100% elétricos (BEV) somaram 14.073 unidades vendidas no país, com crescimento de 62% em relação ao mês anterior e de 193% na comparação anual, segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).
O movimento mostra que, enquanto o país discute o aumento da mistura de etanol na gasolina, uma parcela crescente do mercado já começa a operar fora dessa lógica — sem depender de combustíveis fósseis ou de variações na sua composição.
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Eletrificação ganha papel estratégico
O cenário recente reforça o papel dos veículos elétricos além da agenda ambiental. Um relatório da Agência Internacional de Energia (IEA) aponta que a eletrificação do transporte pode funcionar como uma proteção contra choques de preços e crises de abastecimento.
Segundo a entidade, tensões geopolíticas — como conflitos no Oriente Médio — têm potencial para afetar rotas estratégicas de petróleo, como o Estreito de Ormuz, impactando diretamente o preço dos combustíveis.
Nesse contexto, os carros elétricos passam a ter um novo papel. Mais do que uma alternativa sustentável, tornam-se também uma estratégia de segurança energética.

Energia além da mobilidade
Outro diferencial dos veículos elétricos está na possibilidade de uso da energia armazenada na bateria.
Tecnologias como o Vehicle to Load (V2L) permitem alimentar equipamentos elétricos diretamente pelo carro, transformando o veículo em uma fonte de energia portátil.
Já soluções mais avançadas, como o V2H (Vehicle to Home), possibilitam abastecer residências em momentos de queda de energia ou em horários de pico, enquanto o V2G (Vehicle to Grid) abre caminho para integração com a rede elétrica — ainda em fase de desenvolvimento regulatório no Brasil.

Jornalista graduado pela PUC-Campinas. Atuou como repórter, redator e editor em veículos de comunicação de grande circulação, como Grupo Folha, Grupo RAC e emissoras de TV e rádio. Acompanha o setor de veículos elétricos e outras energias renováveis para o desenvolvimento sustentável.