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BESS na mobilidade elétrica: o pulmão para recarga de pesados

Imagem mostra BESS, com sistemas de geração de energia eólica e fotovoltaica ao fundo

Sistema de Armazenamento de Energia em Baterias (BESS) pode representar o alívio para a rede. Foto: Divulgação/Freepik.

A eletrificação do transporte no Brasil caminha a passos largos, mas o crescimento da frota traz consigo um desafio de engenharia que não pode ser ignorado: a pressão sobre a rede de distribuição. Se a recarga de veículos leves já exige planejamento, a migração de frotas pesadas — ônibus urbanos e caminhões logísticos — impõe uma demanda de potência que pode superar a capacidade dos transformadores locais. 

É neste cenário que os Sistemas de Armazenamento de Energia em Baterias (BESS) deixam de ser um coadjuvante tecnológico para se tornar o alicerce da mobilidade elétrica sustentável.

Como especialista na área, vejo o BESS como o “pulmão” do sistema. Ele permite desacoplar o momento em que a energia é consumida da rede do momento em que ela é injetada no veículo, resolvendo gargalos de infraestrutura que, de outra forma, exigiriam investimentos bilionários e demorados em reforços de rede.

 

O paradoxo da potência: quando a rede não acompanha o carregador

O problema central da eletromobilidade pesada não é o consumo total de energia, mas a potência instantânea. Um eletroposto de carga ultrarrápida para caminhões pode exigir centenas de quilowatts simultaneamente. Se dez veículos decidirem carregar ao mesmo tempo, a demanda local pode causar quedas de tensão ou sobrecarga em circuitos de distribuição que foram projetados para perfis de carga muito mais estáveis.

Aqui, o BESS atua como um amortecedor. O sistema de armazenamento carrega lentamente durante os períodos de baixa demanda da rede e, no momento em que os veículos pesados iniciam a recarga, ele fornece a potência necessária de forma imediata. Essa estratégia, conhecida como peak shaving, reduz o impacto no sistema elétrico e evita que o frotista pague multas pesadas por ultrapassagem de demanda contratada.

 

Integração com renováveis e a viabilidade de eletropostos em rodovias

Um dos maiores obstáculos para a capilaridade da recarga no interior do Brasil é a fragilidade das redes rurais. Instalar carregadores rápidos em rodovias distantes dos centros urbanos é complexo e caro. No entanto, a combinação de BESS com geração solar fotovoltaica cria “oásis energéticos”.

Nesses hubs de recarga autônomos ou semiautônomos, a energia gerada pelo sol durante o dia é armazenada nas baterias do BESS para ser utilizada no pico noturno ou em dias nublados. Isso, além de garantir a continuidade do serviço, também assegura que o veículo está sendo abastecido com energia 100% limpa. Para o Brasil, que possui um vasto potencial solar e eólico, o BESS é a tecnologia que viabiliza a “interiorização” da eletromobilidade, eliminando a ansiedade de autonomia dos motoristas de longa distância.

 

Segunda vida: sustentabilidade e economia circular

Outro ponto fundamental para o setor de mobilidade elétrica é o ciclo de vida das baterias veiculares. Quando a bateria de um ônibus elétrico perde cerca de 20% de sua capacidade original, ela pode não ser mais eficiente para a tração, mas ainda possui uma vida útil valiosa para aplicações estacionárias.

O uso dessas baterias em sistemas BESS de “segunda vida” reduz drasticamente o custo de implementação de sistemas de armazenamento para empresas de logística. Além de ser uma solução economicamente atraente, ela endereça uma preocupação central do ODS 7 e da transição energética: a economia circular. Estamos transformando um passivo ambiental em um ativo estratégico que auxilia na estabilidade da própria rede que recarrega os novos veículos.

 

O BESS como ativo financeiro e regulatório

Para além da técnica, o BESS oferece uma vantagem estratégica no Mercado Livre de Energia. Empresas que possuem armazenamento podem realizar a arbitragem de preço, carregando as baterias quando o custo do kWh está baixo e utilizando essa energia armazenada nos horários de ponta, quando o preço da energia (ou da demanda) atinge seu pico.

No contexto das discussões regulatórias na ANEEL, o armazenamento começa a ser visto como um serviço de rede. No futuro, frotistas equipados com BESS poderão até mesmo fornecer serviços ancilares, como regulação de frequência, sendo remunerados pela distribuidora por ajudar a estabilizar o sistema. O veículo elétrico e sua infraestrutura de suporte deixam de ser apenas “custos” e passam a ser “provedores de resiliência” para a matriz energética nacional.

 

Conclusão: o elo perdido da mobilidade limpa

Não haverá transição energética completa no setor de transportes sem uma infraestrutura de armazenamento robusta e inteligente. O BESS é a peça do quebra-cabeça que une a intermitência das fontes renováveis com a demanda rígida da logística pesada.

Como acadêmicos e profissionais do setor, devemos fomentar projetos que integrem armazenamento e mobilidade desde a concepção. O futuro da eletromobilidade brasileira não depende apenas da potência dos nossos motores ou da capacidade das nossas usinas, mas da nossa capacidade de gerenciar o fluxo de elétrons de forma inteligente. 

O armazenamento em baterias é o caminho para garantirmos que a transição seja não apenas rápida, mas técnica e economicamente sustentável.

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