Trabalhadores da fábrica da BYD em Camaçari (BA). Foto: Divulgação/BYD.
O governo federal aprovou uma nova cota de importação com alíquota zero para veículos eletrificados trazidos ao Brasil nos formatos CKD (completamente desmontados) e SKD (semidesmontados). A medida foi aprovada pelo Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex-Camex) e terá validade até dezembro de 2026.
Ao todo, foram autorizados US$ 463 milhões em importações com isenção tarifária para operações que envolvam montagem local de veículos eletrificados.
A decisão ocorre em um momento de expansão da indústria ligada à eletromobilidade no Brasil, com montadoras ampliando operações de montagem nacional e anunciando investimentos em novas fábricas e linhas de produção.

O que muda na prática
A nova cota não se aplica à importação de veículos prontos, mas sim aos kits de componentes trazidos do exterior para montagem em território nacional.
No modelo CKD, o veículo chega completamente desmontado. Já no SKD, parte dos conjuntos vem pré-montada, exigindo menor nível de montagem local.
Na prática, a medida beneficia operações industriais que utilizam esses formatos como etapa intermediária de nacionalização da produção.
Nos últimos meses, montadoras vêm ampliando esse tipo de estratégia no país. Um dos exemplos mais recentes é a produção dos modelos elétricos da Chevrolet na Planta Automotiva do Ceará (PACE), em Horizonte (CE), onde veículos chegam parcialmente desmontados e recebem componentes e etapas de montagem em território nacional.
O modelo também é utilizado por fabricantes que planejam ampliar sua presença industrial no Brasil à medida que o mercado de eletrificados cresce. A BYD, com fábrica em Camaçari (BA), e a GWM, com fábrica em Iracemápolis (SP), são outras montadoras que operam no sistema CKD e SKD. Há ainda outras empresas que já anunciaram investimentos de produção nacional nos mesmos moldes, e que também podem se beneficiar da medida.

Governo aposta na industrialização gradual
A retomada da cota ocorre em meio à estratégia do governo de estimular a produção local sem interromper o avanço da eletromobilidade.
O entendimento é que operações em CKD e SKD podem funcionar como uma etapa de transição para a ampliação gradual da nacionalização, geração de empregos e desenvolvimento de fornecedores locais.
Nos últimos anos, o mercado brasileiro de veículos eletrificados registrou crescimento acelerado, impulsionado pela chegada de novas marcas, expansão da infraestrutura de recarga e aumento da oferta de produtos.

Anfavea critica decisão
A medida, porém, não foi bem recebida pela Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores).
Em nota, a entidade afirmou que a decisão “restabelece incentivos à importação de veículos elétricos desmontados e semidesmontados” e argumentou que a medida contraria uma política anteriormente definida pelo próprio governo para estimular investimentos produtivos de longo prazo no país.
Segundo a associação, os benefícios destinados à importação tiveram papel importante em uma fase inicial do mercado, mas a ampliação da isenção em um momento de crescimento da produção local pode reduzir os incentivos para uma nacionalização mais profunda da cadeia automotiva.
A Anfavea também destacou que as fabricantes instaladas no país anunciaram cerca de R$ 140 bilhões em investimentos até 2033, incluindo projetos ligados à eletrificação, modernização industrial, engenharia e desenvolvimento de fornecedores.
Para a entidade, o debate atual não está mais relacionado à adoção dos veículos eletrificados, mas ao modelo de desenvolvimento industrial que o Brasil pretende incentivar para a nova mobilidade.

Jornalista graduado pela PUC-Campinas. Atuou como repórter, redator e editor em veículos de comunicação de grande circulação, como Grupo Folha, Grupo RAC e emissoras de TV e rádio. Acompanha o setor de veículos elétricos e outras energias renováveis para o desenvolvimento sustentável.