Os carros elétricos e híbridos poderão ficar mais caros no Brasil em 2027 diante de uma série de mudanças tributárias previstas para o setor automotivo. Entre elas estão o aumento do Imposto de Importação sobre veículos desmontados, conhecidos como CKD, e a entrada em vigor do Imposto Seletivo (IS), também chamado de “imposto do pecado”.
A partir de 1º de janeiro de 2027, a tarifa de importação sobre veículos eletrificados no regime CKD passará de 14% para 35%, conforme o cronograma definido pelo governo federal. Já o Imposto Seletivo começará a produzir efeitos em 2 de fevereiro de 2027 e também alcançará automóveis, com alíquotas calculadas de acordo com características técnicas e ambientais.
As duas mudanças podem influenciar os custos das fabricantes, mas não significam que todos os carros elétricos e híbridos terão reajustes. O impacto dependerá do regime de importação, do nível de nacionalização da produção, das características de cada veículo e das estratégias comerciais das montadoras.
Imposto de importação chegará a 35% para kits CKD
A elevação da tarifa foi definida pelo Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex-Camex), que antecipou o fim do cronograma de transição tributária para veículos eletrificados importados.
Com a mudança, os veículos no regime CKD, sigla para Completely Knocked Down, passarão a pagar 35% de Imposto de Importação a partir de 1º de janeiro de 2027. Nesse sistema, os automóveis chegam ao Brasil completamente desmontados para serem montados no território nacional.
A modalidade semidesmontada, conhecida como SKD (Semi Knocked Down), já está sujeita à alíquota de 35% desde julho de 2026. Os veículos eletrificados importados completamente montados também passaram a seguir a tarifa de 35% a partir desse período.
A mudança pode afetar especialmente fabricantes que dependem de componentes e conjuntos importados para realizar a montagem final dos automóveis no Brasil.
Cotas com imposto zero têm prazo limitado
Em junho de 2026, o governo federal aprovou cotas adicionais de importação com alíquota zero para veículos nos regimes CKD e SKD.
O benefício corresponde a um volume total de US$ 463 milhões em importações e tem validade de seis meses, a partir de julho de 2026. A medida permite que empresas contempladas importem determinados volumes de veículos sem recolher o Imposto de Importação, respeitando os limites estabelecidos.
A concessão, no entanto, não representa uma isenção permanente. Fora das cotas autorizadas, as alíquotas previstas no cronograma continuam valendo.
Com isso, fabricantes que utilizam os regimes CKD e SKD precisarão considerar o encerramento do benefício temporário e a retomada integral das tarifas previstas para 2027.
Imposto do pecado também será cobrado sobre automóveis
Outra mudança tributária que entrará em vigor em 2027 envolve o Imposto Seletivo (IS), conhecido popularmente como “imposto do pecado”.
Em 4 de novembro de 2026, o governo federal publicou a Medida Provisória 1.399/2026, que estabelece as alíquotas e as regras de cobrança do tributo durante o primeiro ano de implementação.
A cobrança começará em 2 de fevereiro de 2027 e também alcançará automóveis. A tributação levará em consideração características como tipo de motorização, potência, eficiência energética, emissão de dióxido de carbono (CO₂) e reciclagem.
A legislação estabelece alíquotas-base diferentes para as categorias de veículos, com ajustes conforme os critérios técnicos e ambientais. Também são aplicados fatores de conversão para determinar as alíquotas efetivas durante o período de transição.
O novo tributo, portanto, não representa uma cobrança uniforme para todos os automóveis. As características de cada modelo poderão influenciar o valor devido.
Carros sustentáveis poderão ter alíquota zero
A medida provisória também prevê alíquota zero do Imposto Seletivo para veículos que possuam registro de versão sustentável concedido pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), desde que atendam cumulativamente aos critérios estabelecidos.
Entre os requisitos estão limites de emissão de CO₂, reciclagem, realização de etapas de fabricação no Brasil e enquadramento na categoria de veículo prevista nas regras.
A legislação também estabelece alíquota zero para determinadas aquisições realizadas por pessoas com deficiência, pessoas com transtorno do espectro autista e taxistas, desde que sejam cumpridas as condições legais.
Isso significa que a isenção não será automática para qualquer carro elétrico ou híbrido. O enquadramento dependerá do atendimento aos requisitos previstos na regulamentação.
Regras de transição serão aplicadas em 2027
O primeiro ano de cobrança do Imposto Seletivo terá caráter transitório. Para 2027, o cálculo utilizará as alíquotas iniciais e os fatores de conversão definidos pela medida provisória, tendo como referência a estrutura atual do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).
Por isso, a criação do novo tributo não deve ser interpretada, isoladamente, como um aumento generalizado da carga tributária dos automóveis.
O governo deverá encaminhar ao Congresso Nacional, até 31 de maio de 2027, um projeto de lei com a definição das alíquotas permanentes do Imposto Seletivo, previstas para entrar em vigor a partir de janeiro de 2028.
Redução de incentivo fiscal na China também pode afetar custos
Outro fator que poderá influenciar o mercado brasileiro é a mudança na política tributária chinesa para veículos elétricos.
A partir de 1º de abril de 2027, a China reduzirá de 13% para 9% a alíquota de restituição do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) incidente sobre exportações de veículos de nova energia.
A medida foi anunciada pelo Ministério das Finanças e pela Administração Estatal de Tributação da China em 12 de outubro de 2026.
A redução do benefício fiscal poderá alterar os custos das exportações chinesas e influenciar as estratégias comerciais das montadoras que atuam no Brasil. Entretanto, não significa que os veículos chineses terão necessariamente um reajuste no mercado brasileiro.
O eventual repasse aos preços dependerá das condições de produção, exportação, negociação e comercialização de cada empresa.

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Nacionalização da produção pode reduzir impacto
A elevação dos impostos não significa que todos os carros elétricos vendidos no Brasil terão aumento de preço em 2027.
Fabricantes com maior produção nacional e utilização de componentes locais poderão ter exposição diferente às mudanças tributárias. A substituição de peças importadas por itens produzidos no Brasil também poderá reduzir a dependência de kits CKD.
Além disso, o enquadramento de determinados modelos nas regras de sustentabilidade do Imposto Seletivo poderá resultar em alíquota zero para veículos que atendam aos requisitos legais.
Outros fatores, como concorrência entre fabricantes, custos de produção, variação cambial, estoques e margens comerciais, também poderão influenciar os valores cobrados dos consumidores.
Preços dependerão das estratégias das montadoras
O novo cenário tributário deverá exigir ajustes nas estratégias das empresas que utilizam kits importados para abastecer o mercado brasileiro.
Entre as alternativas estão ampliar a produção local, substituir componentes importados, reorganizar as operações industriais e absorver parte dos custos adicionais para preservar a competitividade.
Para os consumidores, a principal mudança será a possibilidade de encontrar determinados modelos eletrificados com preços mais elevados a partir de 2027. Entretanto, não há uma estimativa oficial de quanto cada fabricante poderá reajustar seus veículos.
Assim, o aumento do Imposto de Importação, a implementação do Imposto Seletivo e as mudanças na política de incentivos chinesa formam um novo cenário para o mercado de carros elétricos e híbridos no Brasil. O efeito sobre os preços dependerá de como cada montadora irá adaptar sua produção, importação e estratégia comercial.
