Comprar um carro elétrico não significa sair da concessionária e apenas ligar o carregador em uma tomada de casa. Esse é o erro mais comum de quem está começando, segundo Maycon Salles e Rodrigo Silveira, sócios da MMR Eletromobilidade, empresa de capacitação e consultoria em infraestrutura de recarga.
Os especialistas participaram, na última terça-feira (20), do painel “Infraestrutura de recarga: do plano à operação”, na sexta edição do Canal Conecta, congresso promovido pelo Canal Solar, e conversaram com o Canal VE sobre os cuidados que o comprador de um elétrico precisa ter antes de instalar o carregador em casa ou no condomínio.
“O principal erro hoje é a falta de informação para esse usuário de que ele não está lidando com um carregador que necessita apenas de uma tomada, e sim de toda uma infraestrutura segura”, afirmou Maycon Salles.
Por que a tomada comum não serve?
A diferença está no tempo de uso. Uma tomada comum foi projetada para aparelhos que funcionam por minutos, como um aspirador de pó. Já a recarga de um carro elétrico mantém o circuito em funcionamento por horas, o que exige proteções específicas previstas em norma.
Por isso, cabe a um profissional avaliar se a tomada existente está apta para a recarga. Muitas vezes não está, e a solução passa a ser a instalação de um carregador de parede, o wallbox. “Ele está fazendo um pequeno eletroposto na casa dele”, resumiu Rodrigo Silveira.
Segundo os especialistas, o consumidor muitas vezes é induzido ao erro já na compra do carro. “Ninguém quer vender dificuldade”, disse Silveira. No painel, Maycon afirmou que vendedores ainda dizem que basta uma tomada, embora os Corpos de Bombeiros de vários estados já restrinjam o uso do carregador portátil, ligado na tomada e conhecido como modo 2. Em São Paulo, por exemplo, uma portaria de 2026 permite apenas carregadores de parede (modos 3 e 4) em garagens internas e cobertas de edificações, como as de condomínios.

Lucas de Moraes Domingues, head de engenharia e operações da ChargeOn, empresa que opera eletropostos, resumiu no mesmo painel a ordem invertida que costuma acontecer: o consumidor compra o carro, compra o carregador e só por último pensa na parte elétrica do local.
Quem deve fazer a instalação?
Outro erro comum, segundo os especialistas, é contratar qualquer eletricista. O recomendado é buscar uma empresa com responsável técnico, como um engenheiro eletricista ou um técnico em eletrotécnica, profissionais registrados em conselho de classe. “Instalação elétrica pode pegar fogo? Pode. Se isso ocorrer, quem é o dono disso aqui? Quem é o técnico, quem é o engenheiro?”, questionou Rodrigo.
Esse profissional emite a Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), documento que atesta que uma pessoa habilitada fez a instalação de acordo com as normas. Em São Paulo, a lei estadual que garante ao morador de condomínio o direito de instalar carregador na própria vaga exige que o serviço seja feito por profissional habilitado, com ART, e em conformidade com normas como a ABNT NBR 17019.
Para escolher o profissional, a recomendação dos especialistas é pesquisar antes: verificar se a empresa tem site, avaliações no Google e reclamações registradas, e se é especializada em mobilidade elétrica.
Garantia e seguro em jogo
A instalação incorreta também pode trazer problemas na hora de acionar a garantia. Segundo os especialistas, o fabricante parte do princípio de que tudo foi feito de acordo com a norma. Se encontrar algo fora do padrão, pode negar a cobertura. Quando o carregador apresenta defeito, é comum que seja pedido laudo fotográfico, a ART e o projeto elétrico da instalação.
O mesmo vale para o seguro, que vai investigar o que causou o problema. “A questão da garantia sempre vai ser um calcanhar de Aquiles”, afirmou Rodrigo.
Quanto custa a instalação correta?
Em uma casa, a infraestrutura para a recarga custa em média R$ 3 mil, sem contar o valor do carregador, segundo os especialistas.
Em condomínio, o valor para o morador fica entre R$ 3 mil e R$ 8 mil. A variação depende principalmente da distância entre o quadro de energia e a vaga de garagem. Antes disso, o próprio condomínio tem um custo para preparar a estrutura, porque, como explicou Maycon Salles, “a regra número um de um condomínio é que se um tem direito, todos os outros também têm”.

O desafio dos condomínios
O dinheiro, porém, não é a única barreira. Segundo os especialistas, ainda falta informação para síndicos e moradores, e muitos condomínios até estão dispostos a pagar, mas não sabem por onde começar. Há também o receio de que a instalação traga riscos ao prédio, o que, de acordo com eles, é resolvido com projeto e respeito às normas. “Se eu estou te entregando critérios, procedimentos normativos, minimamente tudo vai estar seguro”, afirmou Salles.
Em São Paulo, desde fevereiro, uma lei estadual garante ao condômino o direito de instalar, às suas custas, um carregador na vaga privativa, desde que respeitadas as normas técnicas. O condomínio só pode recusar com justificativa técnica ou de segurança documentada.
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Materiais ruins e risco de incêndio
Os especialistas afirmam que já há casos de incêndio pelo Brasil em garagens e em eletropostos, provocados por instalações mal dimensionadas, mal executadas ou com problemas de conexão. Ainda não existe, porém, um levantamento oficial. Segundo eles, a Abracopel, associação que acompanha acidentes de origem elétrica, deve começar a compilar esses casos a partir do próximo ano.
No painel, Maycon contou ter visto estações pegarem fogo por falhas na própria conexão da concessionária de energia, como cabos de alumínio ligados a cabos de cobre, e criticou estações entregues sem comissionamento, a etapa de testes que atesta que a instalação está pronta para operar com segurança.
Entre as causas mais frequentes, os entrevistados apontam a falta de inspeção da instalação, como a termografia, e o uso de materiais de baixa qualidade. Um dos problemas citados são os cabos “desbitolados”, que não cumprem a norma e são vendidos pela metade do preço na internet. “Não tem segredo: cobre é cobre. Existe ouro mais barato? Se você comprar uma corrente de ouro mais barata, cobre é a mesma coisa”, comparou Rodrigo. Como o carregador funciona por horas e em alta potência, o sistema fica sob estresse constante.
Para os especialistas, o caminho é inverter a ordem que costuma ser seguida. “Não deve começar do carregador. Tem que começar de um planejamento, de um estudo, de uma engenharia”, afirmou Maycon, que no painel resumiu a mesma ideia: o carregador é “a cereja do bolo”, o último item a ser escolhido, depois do projeto e do dimensionamento.
