O avanço da eletrificação da frota brasileira produz impactos cada vez mais perceptíveis sobre o mercado de combustíveis. Embora o consumo de gasolina e etanol ainda cresça em termos absolutos, a expansão de veículos elétricos e híbridos vem reduzindo o ritmo de aumento da demanda por combustíveis.
De acordo com um levantamento da StoneX, aproximadamente 685 mil metros cúbicos de gasolina equivalente deixarão de ser consumidos considerando todo o ano de 2026. A tendência é de ampliação desse volume ao longo dos próximos anos, chegando a cerca de 1,3 milhão de metros cúbicos em 2030.
Ampliação da frota e projeções
Segundo as projeções da empresa, a frota de veículos eletrificados deverá alcançar quase 1,7 milhão de unidades até o fim da década, representando entre 4% e 5% da frota nacional de veículos leves. O avanço, porém, é gradual e não reduz a demanda por gasolina e outros combustíveis, causando, portanto, uma desaceleração que pode se potencializar.
“Não se trata de um colapso da demanda por combustíveis, mas de uma compressão gradual do consumo por veículo. O impacto da eletrificação, neste momento, aparece muito mais como desaceleração do crescimento do que como reversão da curva”, explica Isabela Garcia, analista de Inteligência de Mercado da StoneX.

Híbridos puxam salto
O levantamento também mostra que os principais responsáveis por esse efeito no curto e médio prazo são os veículos híbridos convencionais (HEVs) e os híbridos plug-in (PHEVs).
Os híbridos convencionais apresentam eficiência energética, em média, cerca de 14% superior à dos veículos flex tradicionais, reduzindo o consumo de gasolina ou etanol sem eliminá-lo completamente. Já os híbridos plug-in têm capacidade de rodar cotidianamente no modo elétrico, ainda podendo utilizar o motor a combustão durante a operação.
“Os dados reais de uso mostram que os PHEVs rodam grande parte do tempo com o motor a combustão. Isso significa que o efeito de substituição do combustível é menor do que o esperado, e o impacto sobre a demanda é mais moderado”, aponta Letícia Corrêa, analista de Inteligência de Mercado da StoneX.
Renovação é gradual e mercado varia geograficamente
Outro fator que limita os efeitos da eletrificação sobre o mercado de combustíveis é a lenta renovação da frota no país. De acordo com o estudo, a taxa anual de sucateamento dos veículos varia entre 2% e 4%, permitindo que automóveis vendidos nos últimos anos permaneçam em circulação por longos períodos e continuem sustentando a demanda por combustíveis líquidos.
A distribuição dos veículos eletrificados também ocorre de forma desigual pelo país. A maior concentração está nas regiões Sudeste e Sul, onde há maior renda e infraestrutura de recarga, enquanto em outras regiões os veículos a combustão possuem fatia maior no mercado.

Curto, média e longo prazo
As projeções da StoneX indicam ainda que, em 2030, a eletrificação deverá representar um desvio equivalente a aproximadamente 2,46% da frota em consumo de combustíveis. Na prática, isso corresponde a cerca de 902 mil veículos deixando de demandar gasolina ou etanol em comparação com um cenário sem eletrificação.
Mesmo com esse avanço, o estudo não prevê uma retração absoluta do mercado de combustíveis no médio prazo. A expectativa é de continuidade do crescimento da demanda, porém em um ritmo mais moderado, à medida que a participação dos veículos eletrificados aumenta e a eficiência energética da frota brasileira evolui.
“O mercado de combustíveis entra em uma nova fase, marcada menos por ruptura e mais por adaptação. A eletrificação impõe um novo patamar de crescimento, mais moderado, mas ainda positivo”, conclui Garcia.
