Trocar um carro a combustão por um eletrificado está mais barato?

Trocar um carro a combustão por um eletrificado está mais barato?
Mercado já apresenta variações entre VEs. Foto: Divulgação / BYD

A diferença de preço entre carros a combustão, híbridos e elétricos está mudando no Brasil. Enquanto a chegada de novos modelos e a redução de preços dos 0 km pressionaram o valor de revenda de parte dos eletrificados, os dados mais recentes mostram que alguns elétricos usados já começam a apresentar comportamento diferente, especialmente no segmento de entrada.

Para o consumidor que pretende trocar de tecnologia, a questão, portanto, não é apenas quanto custa um carro elétrico ou híbrido, mas quanto dinheiro precisa ser colocado na troca depois de considerar o valor do veículo usado. A Tabela Fipe, principal referência de preços médios de veículos no país, tem valores que servem como parâmetro para negociações e podem variar conforme região, conservação, oferta e procura.

PUBLICIDADE
Haval-H6-HEV-One
Híbridos podem ser transição para a eletrificação. Foto: Divulgação/GWM

Modelos mais antigos x atuais

A depreciação dos eletrificados ainda é desigual. Os dados disponíveis em 2026 mostram que não existe mais um comportamento único para todos os VEs.

O IBV Auto, índice do Banco BV que acompanha os preços dos automóveis leves usados, apontou que, até julho de 2026, os elétricos lançados em 2023 acumulavam desvalorização de 46,1%. No mesmo período, os híbridos haviam perdido, em média, 26,8%, enquanto os modelos a combustão comparáveis recuaram 21,4%.

O resultado foi influenciado, entre outros fatores, pela redução dos preços dos carros elétricos novos e pelo aumento da concorrência. Ou seja, quando um modelo novo passa a ser vendido por menos, o preço de exemplares usados da mesma família também tende a ser pressionado.

Para modelos mais novos, porém, a conta é outra. Um estudo mais recente da Bright Consulting comparou veículos 0 km vendidos em julho de 2025 com seus preços atuais no mercado de usados, considerando valores deflacionados. Entre os modelos de até R$ 170 mil, os carros a combustão perderam, em média, 13,4% do valor real em um ano. Entre os elétricos da mesma faixa, a perda foi de 7,9%.

O cenário muda nas faixas superiores. Entre R$ 250 mil e R$ 350 mil, os híbridos plug-in registraram perda de 22,2%, enquanto os elétricos ficaram em 20,5% e modelos a combustão em 18,4%. Acima de R$ 350 mil, os BEVs apresentaram desvalorização de 21,2%. Segundo a Bright, o comportamento está relacionado ao perfil mais premium desses veículos e à maior pressão competitiva existente nesses segmentos.

A conclusão é que já não é adequado tratar “carro eletrificado” como uma única categoria quando o assunto é valor de revenda.

 

Elétricos seminovos

Um dos principais fatores que explicam essa transformação é a redução dos preços dos carros elétricos seminovos. O comportamento aparece nas próprias referências de mercado. 

Em agosto de 2026, o Dolphin Mini 2025 tinha preço médio de R$ 105.665 na Tabela Fipe. A referência da Webmotors para o mesmo veículo está em torno de R$ 107 mil para o estado de São Paulo.

Na prática, isso significa que um consumidor interessado no modelo pode encontrar um exemplar usado por pouco mais de R$ 100 mil, enquanto a versão nova parte de R$ 119.990.

A diferença entre novo e seminovo, portanto, pode ser de quase R$ 15 mil, o que pressiona os preços de modelos 0 km.

BYD Dolphin Mini branco na rua
BYD Dolphin Mini é o carro elétrico mais vendido do Brasil. Foto: Divulgação/BYD.

Quanto custa efetivamente mudar de tecnologia trocando um modelo usado?

Uma maneira mais próxima da realidade do consumidor é calcular o chamado custo de migração.

A conta é simples:

Preço do eletrificado – valor do carro usado = desembolso necessário para a troca.

Em um exemplo de entrada, um Chevrolet Onix 2024 1.0 Turbo automático aparecia em agosto de 2026 com preço médio de R$ 75.618 na Tabela Fipe.

Para o cálculo, vamos analisar o preço já citado do Dolphin Mini 2025 de R$ 105.665.

Considerando exclusivamente essas duas referências — e sem levar em conta diferenças de categoria, equipamentos, estado de conservação, quilometragem ou eventual desconto de negociação — a diferença seria de aproximadamente R$ 30 mil.

Esse número é mais relevante para o consumidor do que simplesmente dizer que o Dolphin Mini custa seminovo cerca de R$ 110 mil.

Isso porque alguém que já possui um carro de aproximadamente R$ 75 mil não precisa necessariamente levantar os R$ 110 mil completos para migrar para um elétrico. Parte do patrimônio já está no veículo usado.

 

Troca por um 0 km

Ao mesmo tempo, a conta real pode ser diferente para usar um carro usado na troca por um 0 km. Concessionárias e lojistas normalmente trabalham com margens de negociação, custos de preparação, garantia e risco de revenda. Por isso, o valor efetivamente oferecido na troca pode ficar abaixo da referência da Fipe.

 

Híbridos ocupam uma posição intermediária

Nos híbridos, a dinâmica também é diferente. Um Toyota Corolla Cross XRV Hybrid Flex 2025 aparece em agosto de 2026 com preço médio de R$ 178.728 na Tabela Fipe. O modelo teve oscilações relativamente pequenas ao longo dos últimos meses: estava em R$ 182.550 em janeiro, caiu para R$ 171.780 em março e chegou a R$ 179.273 em julho.

Outro exemplo é o GWM Haval H6 HEV One 2025, cuja referência Fipe está em R$ 181.507 em agosto de 2026.

O comportamento dos híbridos também merece atenção porque eles podem representar uma etapa intermediária para consumidores que ainda não estão dispostos a migrar diretamente para um veículo 100% elétrico.

No início da expansão dos elétricos no Brasil, uma das principais preocupações do consumidor era justamente descobrir quanto o carro valeria depois de alguns anos. Agora, o mercado de revenda já mostra que elétricos de entrada podem perder menos valor do que modelos equivalentes a combustão.

 

Cenário já sofre transformações

A Indicata identificou em 2026 uma combinação de maior demanda e oferta ainda limitada de elétricos usados. O resultado foi uma melhora na liquidez e, em determinados períodos e modelos, sustentação ou até aumento dos preços. Mas o mercado ainda está longe de ser homogêneo.

A própria diferença entre os números do IBV Auto e da Bright Consulting mostra isso. Enquanto os modelos elétricos mais antigos continuam apresentando perdas expressivas em determinados recortes, os elétricos de entrada mais recentes já demonstram capacidade de preservar valor melhor que modelos a combustão equivalentes em análises de um ano.

 

Uso também entra na conta

O valor necessário para fazer a troca é apenas uma parte da equação. Depois da compra, elétricos podem apresentar custos menores de energia e manutenção em determinadas condições de uso. Híbridos, por sua vez, podem reduzir o consumo de combustível sem exigir mudança completa na rotina de abastecimento.

Por isso, uma análise financeira mais completa precisa considerar pelo menos quatro componentes:

valor do veículo usado na troca + desembolso para comprar o novo + custo de energia/combustível + manutenção.

O valor residual ao final do período de propriedade também deve entrar na conta.

Esse ponto é especialmente importante porque uma eventual economia mensal de combustível pode ser anulada por uma depreciação maior na hora da revenda. Da mesma maneira, uma diferença maior no preço de compra pode ser compensada ao longo dos anos por menores despesas de utilização.

Geely EX2
Modelos de entrada desvalorizam menos. Foto: Rodolfo Bührer/ Geely

Distância diminui, mas de forma heterogênea

Os dados disponíveis em 2026 apontam para uma mudança importante: a antiga ideia de que todo carro elétrico necessariamente perde muito mais valor que um modelo a combustão já não descreve adequadamente o mercado brasileiro.

Há, sim, elétricos que sofreram forte desvalorização, principalmente modelos mais antigos e aqueles atingidos por grandes reduções de preço dos 0 km.

Por outro lado, elétricos de entrada mais recentes já apresentam comportamento mais próximo — e em determinados recortes até melhor — que o dos carros a combustão.

A consequência para quem pretende migrar é direta: não existe mais uma resposta única para a pergunta sobre qual tecnologia é financeiramente melhor.

O custo da mudança depende do carro que o consumidor já possui, do eletrificado escolhido, da diferença entre os valores de troca e venda, da depreciação esperada e, posteriormente, do custo de uso.

Em alguns casos, a distância financeira entre combustão e eletrificação já diminuiu de forma significativa. Em outros, principalmente nos segmentos mais caros ou entre modelos elétricos de gerações anteriores, a desvalorização ainda pode representar uma barreira importante.

O que mudou é que a decisão deixou de ser simplesmente “quanto custa um elétrico?” e passou a ser uma pergunta mais complexa — e mais útil para o consumidor:

“Quanto preciso colocar além do meu carro atual para mudar de tecnologia e quanto essa escolha vai me custar até o próximo momento de troca?”

Gustavo Cabral
Gustavo Cabral

Estudante de jornalismo na PUC-Campinas. Atuou como redator, repórter, social media e assessor de imprensa na área de esportes. Estagiário no Canal VE.