Mais etanol na gasolina: híbridos não flex correm risco no Brasil?

Mais etanol na gasolina: híbridos não flex correm risco no Brasil?
Foto: Canva

O aumento da quantidade de etanol misturado à gasolina vendida no Brasil afeta diretamente a autonomia dos motoristas de carros híbridos que rodam apenas a gasolina (não flex). Testes de laboratório do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT) mostram que a mudança da gasolina antiga (E27, com 27% de etanol) para a mistura com 30% de etanol (E30) reduz o rendimento desses veículos no trânsito urbano.

O Veículo Q12, um modelo híbrido plug-in (que pode ser recarregado na tomada), fazia uma média de 19,6 km por litro na cidade com a gasolina E27. Ao rodar com a mistura E30, essa média caiu para 18,0 km por litro. Isso representa uma perda de 8,2% na autonomia urbana.

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Já o Veículo Q14, um híbrido tradicional (que não precisa de tomada), teve seu rendimento reduzido de 19,5 km por litro (E27) para 18,7 km por litro (E30).

A explicação para essa queda é simples: o etanol puro entrega menos energia por litro do que a gasolina pura. Por isso, para manter o carro rodando com o mesmo desempenho, o motor precisa queimar mais combustível.

 

Os riscos para as peças do motor

Embora os computadores de bordo dos carros modernos consigam ajustar a queima do combustível para o veículo não falhar no dia a dia, o estudo oficial da Faculdade Mauá tem um ponto cego importante: não foram feitos testes para avaliar o desgaste das peças ao longo dos anos.

O próprio relatório do IMT deixa claro que os testes de durabilidade e corrosão a longo prazo foram dispensados pelo governo na fase do E30, ficando previstos apenas caso haja um futuro aumento para 35% de etanol (E35).

Especialistas da área automotiva alertam que essa falta de testes esconde riscos para veículos projetados originalmente apenas para gasolina pura ou com pouco álcool:

  1. Ferrugem e corrosão interna: O etanol absorve umidade do ar com facilidade. Com mais álcool na gasolina (chegando a 32% no E32 atual), aumenta a presença de água no sistema, o que pode acelerar a corrosão de peças metálicas como bombas de combustível e bicos injetores que não foram preparados para o mercado brasileiro.
  2. Óleo do motor mais fino: Em carros híbridos, o motor a gasolina liga e desliga o tempo todo na cidade, rodando quase sempre frio. Nessas condições, o combustível não queima por completo e pode escorrer para o compartimento do óleo (cárter). Isso mistura o combustível ao óleo do motor, tirando a sua capacidade de lubrificar e aumentando o desgaste interno das peças.
Com lanterna e óculos de proteção, homem observa chassi de veículo
Sempre que possível, verifique as condições do carro. Foto: Envato/Elements.

Dúvidas e impasse na garantia

A mudança na gasolina também criou uma dor de cabeça jurídica entre montadoras e consumidores. Durante as discussões técnicas com o governo, a Anfavea (associação que reúne as fabricantes no país) expressou uma preocupação clara:

  • A entidade registrou em ata que precisava de um posicionamento dos fabricantes de autopeças para garantir que as peças dos carros suportariam o novo combustível sem quebrar durante o período de garantia.
  • Além disso, a Abeifa (que representa as marcas importadoras) defendeu que novos aumentos na gasolina só devem ocorrer após testes rigorosos de durabilidade.

A situação gera uma “zona cinzenta” para o consumidor: enquanto os postos no Brasil são obrigados a vender gasolina com 32% de etanol (E32), os manuais de muitos carros importados dizem que o veículo só deve rodar com gasolina que contenha entre 10% e 25% de álcool. Se uma peça do sistema de combustível quebrar, o dono do carro pode enfrentar dificuldades para conseguir o conserto coberto pela garantia na concessionária.

 

A reação e a solução das montadoras

Para proteger seus veículos desse cenário e não perder vendas, grandes montadoras como GWM e BYD decidiram adaptar rapidamente seus carros para a realidade brasileira, apostando na tecnologia híbrida flex (que aceita tanto etanol quanto gasolina em qualquer proporção).

A GWM, por exemplo, transformou toda a linha do SUV Haval H6 em híbrida flex. Para fazer essa mudança com segurança, a engenharia da marca precisou trocar peças e reforçar o motor:

  • Peças reforçadas: Foram instaladas bombas de combustível e bicos injetores feitos com materiais especiais resistentes à corrosão do álcool.
  • Sensores inteligentes: Os carros ganharam um sensor no tanque que identifica instantaneamente a quantidade de etanol na gasolina. O computador do carro lê essa informação e ajusta automaticamente o funcionamento do motor, evitando falhas e engasgos.

Essa corrida para lançar carros híbridos flex mostra que a mudança vai além do marketing ambiental: trata-se de uma solução de engenharia necessária para garantir que os veículos continuem rodando sem problemas no Brasil.

Construção de Haval H6 em linha de montagem
GWM Haval H6 em fábrica de Iracemápolis (SP). Foto: Divulgação/GWM.
Raphael Guerra
Raphael Guerra

Jornalista formado na PUC Campinas. Atuou na Futpress, TV Século 21 e ENM. Possui experiência em podcast, televisão, rádio e assessoria de imprensa.