Carregar o carro elétrico até 100% pode ser um problema? Entenda a recomendação dos fabricantes

Carregar o carro elétrico até 100% pode ser um problema? Entenda a recomendação dos fabricantes
Bateria Blade da BYD. Foto: Divulgação / BYD

Carregar a bateria de um carro elétrico até 100% reduz sua vida útil? É melhor manter a carga entre 20% e 80%? E deixar o veículo conectado ao carregador depois de atingir a carga máxima pode causar algum problema?

PUBLICIDADE

Essas são algumas das dúvidas que surgem entre consumidores à medida que os carros elétricos ganham espaço no mercado brasileiro. E, apesar de existirem recomendações bastante diversas sobre como preservar uma bateria, não há uma única regra que possa ser aplicada a todos os veículos.

O próprio manual do BYD Dolphin Mini, carro elétrico mais vendido do Brasil, orienta carregar a bateria até 100% pelo menos uma vez por semana. Já a Geely recomenda aos proprietários do EX2 manter a carga, sempre que possível, entre 20% e 80%.

Mas por que as recomendações são diferentes? Afinal, carregar até 100% faz ou não faz mal à bateria?

Para responder a essas perguntas, o Canal VE consultou especialistas, além dos manuais e as orientações das fabricantes dos carros elétricos mais vendidos no Brasil para entender como cada uma recomenda realizar o carregamento e quais cuidados podem contribuir para preservar a bateria ao longo da vida útil do veículo.

O que consta no manual?

Assim como acontece com a bateria de um celular, a de um carro elétrico também perde capacidade ao longo do tempo. Esse processo é natural, mas alguns hábitos de carregamento podem acelerar o desgaste.

As recomendações variam entre as fabricantes, mesmo quando os veículos utilizam baterias com a mesma composição química. A BYD, por exemplo, orienta que os modelos Dolphin Mini e Dolphin, equipados com baterias de lítio-ferro-fosfato (LFP), sejam carregados até 100% pelo menos uma vez por semana.

Já para o Geely EX2, que também utiliza bateria LFP, a recomendação é manter a carga entre 20% e 80% no uso cotidiano.

Essa diferença não significa necessariamente que uma fabricante esteja certa e outra errada. Além da preservação da capacidade da bateria, as recomendações podem considerar características específicas do sistema de gerenciamento e necessidades de calibração da estimativa de carga.

A Volvo, por sua vez, alerta em seu manual que carregar a bateria frequentemente até 100% ou deixá-la descarregar completamente pode acelerar sua degradação.

Um estudo publicado em 2024 na revista científica Journal of The Electrochemical Society ajuda a explicar esse comportamento. Ao testar baterias LFP em diferentes faixas de carga, os pesquisadores observaram que a permanência prolongada em níveis elevados de carga favorece a perda de capacidade.

O estudo revelou um resultado contraintuitivo: nas condições ensaiadas, células LFP submetidas a ciclos entre 75% e 100% de carga perderam capacidade mais rapidamente do que aquelas operadas entre 0% e 100%. A melhor retenção de capacidade ocorreu na faixa de 0% a 25%, seguida pelas janelas de 0% a 60% e de 0% a 80%. Os resultados mostram que descargas rasas não garantem maior durabilidade quando a bateria trabalha continuamente com carga elevada: além da profundidade de descarga, o estado de carga médio também influencia o envelhecimento.

Fonte: Zsoldos et al., Journal of The Electrochemical Society (2024).

Entretanto, isso não significa que trabalhar nessa faixa é melhor: o mais indicado é seguir sempre o que diz o manual do carro.

Para o professor Hudson Zanin, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a bateria de íons de lítio sofre mais nos extremos de carga. “Perto de 100%, a tensão das células está no limite e os eletrodos ficam numa condição quimicamente mais instável. Isso acelera reações indesejadas com o eletrólito, que consomem lítio e aumentam a resistência interna: a bateria perde capacidade de forma permanente” explica. Segundo ele, o pior cenário é deixar o carro parado por dias com a carga em 100%, ainda mais sob sol forte.

Mas e se o carro continuar conectado à tomada depois de atingir 100%? Segundo a Leapmotor, isso não provoca sobrecarga, pois o próprio sistema interrompe automaticamente o carregamento ao alcançar o limite estabelecido.

A fabricante também informa que a perda gradual de capacidade é considerada desgaste natural e, por isso, não está coberta pela garantia. Isso, porém, não significa necessariamente que toda perda de capacidade esteja excluída da cobertura, já que as condições dependem dos critérios previstos na garantia do veículo.

Isso não significa que carregar até 100% seja proibido. “O sistema de gerenciamento da bateria (BMS) e as margens de segurança dos fabricantes já evitam os limites mais críticos das células. O que encurta a vida útil é o hábito”, afirma Zanin.

Cada montadora avalia as características dos sistemas de bateria de seus veículos e estabelece orientações específicas para o carregamento. Por isso, a principal referência para o motorista deve ser sempre o manual do próprio modelo, especialmente em relação aos limites recomendados para o uso diário.

Por que as recomendações mudam?

As recomendações de carregamento dependem não apenas do tipo de bateria, mas também das características de cada veículo e do sistema de gerenciamento adotado pela fabricante.

A BYD, por exemplo, orienta que os proprietários do Dolphin Mini e do Dolphin carreguem a bateria até 100% pelo menos uma vez por semana. Já a Geely recomenda manter a carga do EX2 entre 20% e 80% no uso cotidiano.

Os três modelos utilizam baterias LFP (lítio-ferro-fosfato), tecnologia presente em diversos carros elétricos de entrada vendidos no Brasil. 

Mesmo sendo de compostos químicos iguais, as baterias têm processos diferentes de construção, o que reforça a importância das recomendações das fabricantes em cada manual.

Além disso, embora essas baterias apresentem boa durabilidade, não significa que todas devam seguir a mesma rotina de carregamento.

Segundo Zanin, a recomendação de manter a carga entre 20% e 80% vale, sobretudo, para as baterias à base de níquel, como as NMC e NCA. “Nas LFP, presentes em vários modelos vendidos no Brasil, a química é mais tolerante a cargas altas, e muitos fabricantes recomendam inclusive carregar até 100% periodicamente, para calibrar o indicador de carga”, diz. E finaliza dizendo que, a regra de ouro, é seguir o manual do fabricante. 

A Volvo também recomenda, para determinadas versões do EX30, manter a carga diária entre 20% e 80%, reservando os 100% para situações específicas, como viagens longas. A fabricante, porém, ressalta que algumas variantes de bateria podem exigir carregamentos completos com maior frequência.

O mesmo vale para outras montadoras, como GAC e Leapmotor, que adotam orientações próprias para seus modelos equipados com baterias LFP.

No dia a dia

O manual do Dolphin da BYD orienta carregar a bateria totalmente em intervalos regulares, pelo menos uma vez por semana, enquanto as outras marcas preferem uma margem de segurança. 

A Leapmotor, dona do B10 e do C10, recomenda manter a carga preferencialmente entre 20% e 90% e evitar que ela fique abaixo de 10% com frequência. A Geely e a Volvo indicam a faixa de 20% a 80%. Já a GAC orienta manter a carga do Aion UT entre 30% e 80%, segundo o manual.

Na prática, muitos modelos permitem definir um limite de carga diretamente no painel ou no aplicativo. Assim, o carro para de carregar sozinho ao atingir a porcentagem escolhida. Segundo Zanin, ciclos curtos, no meio da faixa de carga, desgastam bem menos a bateria do que ciclos completos de 0 a 100%, já que descargas profundas provocam microfissuras nos materiais dos eletrodos. “E manter ao menos 20% ainda garante uma reserva de autonomia para imprevistos”, acrescenta.

Quando carregar até 100%

Para as marcas que limitam a carga diária, como a Volvo, os 100% ficam reservados para viagens longas. A orientação, segundo Zanin, é deixar os 100% para viagens e sair logo depois que a carga terminar, para que a bateria não fique parada cheia.

Na BYD, além da recarga semanal, o manual de manutenção orienta fazer uma carga completa em corrente alternada (AC), ou seja, em casa ou no wallbox, uma vez por mês.

Afinal, até quanto carregar a bateria de cada carro elétrico? Confira na tabela as recomendações das fabricantes.

Orientações de recarga das fabricantes para modelos com bateria LFP. Fonte: manuais e sites oficiais de BYD, Geely, GAC, Leapmotor e Volvo.

VEJA TAMBÉM: Quanto tempo leva para carregar o carro elétrico? Entenda

E você também não precisa ter medo de recarregar seu carro em eletropostos de corrente contínua (DC), pois as baterias são projetadas para durar mais de 1 milhão de km.

 

  • Sob revisão de Gustavo Cabral e supervisão de Bruno Kikumoto
Pamela Cavalcante
Pamela Cavalcante

Jornalista e criadora de conteúdo, pós-graduada em Política e Relações Internacionais na FAAP. Atuo na produção de textos e conteúdos digitais.