A mobilidade elétrica deixou de ser uma discussão sobre o futuro para se tornar uma questão concreta de infraestrutura, energia, economia e planejamento urbano. O Brasil já ultrapassou 680 mil veículos eletrificados, segundo dados da NeoCharge, compilados e categorizados pela Senatran. E vale dizer: esse mercado cresce praticamente sem incentivo. A demanda existe, os empreendedores brasileiros estão investindo e o setor avança por conta própria. A pergunta, então, não é se a eletrificação vai acontecer, mas quanto mais rápido ela poderia andar se tirássemos algumas pedras do caminho.
Com as eleições de 2026 se aproximando, é o momento de colocar essas pedras na mesa. Vejo quatro prioridades.

Uma regra única para as concessionárias
Hoje, instalar um eletroposto no Brasil é possível em qualquer lugar, mas é uma corrida de 100 metros com obstáculos. Cada distribuidora trata os projetos de recarga do seu jeito: algumas são parceiras da eletromobilidade, outras levam meses para analisar um pedido ou criam exigências sem base técnica.
Um exemplo: um estabelecimento pode ligar dez chuveiros elétricos, somando 75 kW, sem nenhum processo especial. Se, no lugar dos chuveiros, instalar dez carregadores AC com a mesma carga, pode ser obrigado a ter um transformador próprio, o que encarece o projeto e alonga a aprovação.
Existem, sim, limites físicos na rede, e eles precisam ser respeitados. Mas boa parte das barreiras é burocrática. Uma regulamentação da ANEEL que padronize o tratamento dos projetos de recarga resolveria isso. Isso vale para conexões dedicadas de até 75 kW e para hubs de recarga em média tensão. A lógica seria a mesma do direito à recarga em condomínios: a regra é garantida e só pode ser negada por um motivo técnico comprovado.

Segurança jurídica na tributação da recarga
Ainda não existe uma regra fiscal clara sobre como tributar a recarga de um veículo elétrico. Há quem a trate como serviço e há quem defenda que é venda de energia, sujeita a ICMS. Essa insegurança trava investimentos e faz cada operador trabalhar de um jeito. Com a regulamentação da reforma tributária em curso, é a hora de resolver isso.

Menos impostos sobre a infraestrutura
Reduzir impostos sobre os carregadores, como ICMS nos estados, PIS/Cofins na esfera federal e, na transição, IBS e CBS, é uma das formas mais diretas de ampliar o acesso à recarga. O retorno para a sociedade é concreto: menos poluição e menos ruído nas grandes cidades. Também melhora o bem-estar de quem passa o dia dentro de um carro ou ônibus, com menos vibração e barulho.
O Brasil tem uma vantagem aqui: cerca de 88% da nossa matriz elétrica é renovável. E, mesmo onde a energia não é limpa, a eletrificação tira a emissão do centro das cidades, onde as pessoas vivem.

Direito à recarga e regras de bombeiros em todos os estados
Aqui já avançamos. São Paulo sancionou neste ano a Lei 18.403, que garante aos condôminos o direito à recarga, e outros estados vêm seguindo essa liderança. O mesmo vale para as normas dos corpos de bombeiros para a instalação de carregadores, que alguns estados já atualizaram. Mas avanços em alguns estados não bastam. Quem investe em recarga, seja uma rede de postos ou um condomínio, precisa de regras claras e iguais em qualquer lugar do Brasil. Enquanto cada estado tiver a sua regra, e alguns ainda não tiverem nenhuma, a infraestrutura vai crescer de forma desigual. É hora de levar essas conquistas para todo o país.

E os carros?
Os incentivos aos veículos também têm seu papel. A redução de IPVA já se mostrou eficaz em lugares como o Distrito Federal e a Bahia. Mas é preciso corrigir distorções, como híbridos flex pagando menos imposto que carros 100% elétricos, o que funciona como reserva de mercado para poucos fabricantes.
A mobilidade elétrica é também uma nova cadeia de negócios. Projeto, instalação, operação, manutenção e software de gestão da recarga já geram investimento, emprego qualificado e inovação no país, e esse ecossistema cresce na mesma velocidade que a infraestrutura.
As eleições de 2026 são uma oportunidade para colocar a mobilidade elétrica no centro da agenda de infraestrutura, transição energética e desenvolvimento urbano. Mais do que escolher representantes, vamos decidir quais projetos de país queremos acelerar.
