Carros elétricos: por que é cedo para prever quem vai vencer

Carros elétricos: por que é cedo para prever quem vai vencer
Frotas de veículos eletrificados. Foto: Indicata Brasil/Divulgação

Por que a pressa? Ter uma opinião sobre tudo – e, de preferência, imediatamente. Essa é a tônica dos nossos dias. Uma novidade aparece, e quase instantaneamente precisamos decidir se é boa ou ruim, se vai dar certo ou fracassar, se é uma revolução ou uma bolha. Hesitar parece fraqueza. Dizer “ainda não sei” soa menos interessante do que apresentar uma conclusão definitiva. O problema é que, em muitos casos, a realidade ainda não terminou de acontecer – e, provavelmente, nunca terminará.

O mercado de carros eletrificados é um bom exemplo. Nos últimos anos, vimos previsões categóricas sobre carros elétricos, híbridos, marcas chinesas, infraestrutura de recarga, valor de revenda, comportamento do consumidor e até sobre quais tecnologias seriam vencedoras. Algumas se confirmaram. Outras não. E várias simplesmente foram feitas cedo demais. É compreensível. Quando uma transformação parece grande, queremos imediatamente saber onde ela vai chegar. Essa atitude, em boa parte, é um vício que adquirimos na era da “disponibilidade imediata e irrestrita” – seja da I.A., do Wikipedia ou do iFood.

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Mas talvez a pergunta mais importante seja outra: por que precisamos saber agora?

Uma análise realmente objetiva não deveria começar necessariamente por uma opinião. Deveria começar pela observação. Quantos carros estão sendo vendidos? Quem está comprando? Como esses carros se comportam depois de dois, três ou cinco anos? Quanto vale um usado? Como evolui a infraestrutura? Qual é o custo real de propriedade? O que acontece quando a garantia termina? Como diferentes tecnologias se comportam em diferentes condições de uso?

E, principalmente: o que os dados estão mostrando que ainda não estamos enxergando? Isso não significa assumir uma posição neutra diante de tudo. Significa reconhecer que há uma diferença importante entre não ter opinião e não ter ainda informação suficiente para formar uma opinião robusta.

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Foto: Indicata/Divulgação

Tecnologia em identidade

Depois disso, ainda cabe uma atitude de prudência. A pressa em ter uma opinião sobre tudo revelou outro problema: nossa tendência de transformar tecnologia em identidade. O carro elétrico passou, em determinados momentos, a representar uma visão de futuro para uns e uma ameaça para outros. O híbrido virou solução definitiva para alguns e apenas uma etapa intermediária para outros. As marcas chinesas foram tratadas ora como fenômeno passageiro, ora como protagonistas inevitáveis.

Quando isso acontece, os dados passam a ser utilizados não para testar uma hipótese, mas para defendê-la. É aí que começamos a errar. Se acreditamos que os elétricos serão inevitavelmente dominantes, qualquer crescimento nas vendas parece comprovar a tese. Se acreditamos no contrário, qualquer dificuldade de infraestrutura ou queda de preço de usados pode ser apresentada como sua confirmação.

Nos dois casos, deixamos de observar o fenômeno e passamos a procurar argumentos para sustentar uma opinião que já tínhamos formado. Talvez devêssemos fazer o contrário. Observar mais. Comparar mais. Esperar um pouco mais. Não para evitar conclusões, mas para que elas sejam melhores. 

O mercado automotivo oferece uma vantagem que poucas outras áreas oferecem: podemos acompanhar a transformação acontecendo diante dos nossos olhos. Temos dados de vendas, preços, estoque, quilometragem, depreciação, utilização, infraestrutura e comportamento do consumidor. Podemos observar não apenas o lançamento de uma tecnologia, mas o que acontece com ela depois que deixa de ser novidade. Isso exige uma mudança de postura.

EX60 na linha de montagem
Fabricação ocorre em Torslanda, na Suécia. Foto: Divulgação / Volvo

“Reflexão automotiva”

Ao invés de perguntar imediatamente “qual tecnologia vai vencer?”, talvez seja mais interessante perguntar “o que os dados estão dizendo hoje?”. E aceitar que a resposta pode mudar amanhã. Ter uma opinião continua sendo importante. Mas talvez tenhamos superestimado a importância de tê-la rapidamente.

Em uma realidade em transformação, a tranquilidade de dizer “ainda não sabemos” pode ser mais interessante do que a necessidade de dizer “eu avisei”. Afinal, algumas das melhores análises não são aquelas que chegam primeiro a uma conclusão. São aquelas que conseguem esperar o suficiente para que a realidade tenha tempo de produzir os dados.

E, quando houver uma opinião, ela talvez seja menos apaixonada, menos definitiva e mais flexível – tanto no mundo automotivo como para outros mundos ao nosso redor.

 

Então… por que a pressa?

Lucio Groch
Lucio Groch

Head Comercial da Indicata Brasil. Profissional com mais de 20 anos de experiência em automotivo, startups, investimentos, vendas complexas e produtos digitais, com atuação no Brasil, Estados Unidos e Europa. Empreendedor e executivo, com experiência em negócios, captação de investimentos e projetos de grande escala. Integrou o projeto campeão mundial de vendas da Mapfre, a gestão de mais de 1 milhão de leads para a Stellantis e a cofundação da QLICAR, pioneira na venda de carros novos pela internet com entrega em todo o Brasil.